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Prisão de idoso de 70 anos durante confronto em Caarapó assusta comunidade indígena

Familiares disseram ao Jornal Midiamax que não puderam vê-lo

Após três dias do confronto entre indígenas da etnia guarani-kaiowa e funcionários de fazendeiros, em Caarapó (cidade a 280 quilômetros de Campo Grande), o clima é de calmaria nesta quarta-feira (29). Embora tranquilos, os indígenas reclamam da prisão de Ambrósio, idoso de aproximadamente 70  anos, na data da confusão.

Área que foi alvo de confrontos neste domingo. Foto: Marcos Ermínio

Os indígenas – que terão as identidades preservadas, pois afirmam ser ameaçados – dizem que se o idoso não retornar até o meio-dia de quinta-feira, vão começar a se mobilizar. Familiares dele disseram ao Jornal Midiamax que não puderam vê-lo, e há somente informações que eles tiveram pela Funai.

“Se não voltar até amanhã (quinta-feira), vamos mobilizar as aldeias daqui. Nove ‘tekoha’ e os Guarani-Kaiwá de todo o Estado. Ele tem parentes em Amambai que já estão sabendo”, diz uma das indígenas.

“Queremos o apoio da (polícia) Federal e da Funai aí vamos até a sede da fazenda, sim. Porque nos falaram que se formos sozinhos la, é invasão. Então queremos apoio”, comenta outro indígena.

Para eles, uma ocupação no entorno da sede seria um modo de chamar a atenção para liberação do indígena, que possui problemas de saúde física e mental. O grande aparato de forças policiais estaduais que foi deslocado à região já não está mais na fazenda, mas o Jornal Midiamax encontrou uma equipe do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) dentro da propriedade, além de segurança particulares.

De acordo com o delegado de Caarapó, Anezio de Andrade, o idoso já foi encaminhado ao presídio de Caarapó. “A família e a Funai estão informadas. Agora é em âmbito judicial”, explica. Conforme a autoridade policial, o idoso foi indiciado por roubo e resistência. A fiança, neste caso, só pode ser arbitrada pelo juiz.

A confusão do fim de semana teria tido início na suposta ida de aproximadamente 100 indígenas à sede da fazenda, localizada a cerca de 1 quilômetro do local retomado pelos indígenas como área ancestral (tekoha guapo’y), há aproximadamente dois anos.

Área que foi alvo de confrontos neste domingo. Foto: Marcos Ermínio

Os indígenas que estão no tekoha guapo’y, e tiveram as residências reviradas pelos policiais, como mostram os vídeos que circulam em redes sociais, negam roubos. “Ele (proprietário) já não tem mais nada aí. Ele foi levando embora”.

Na sede da fazenda, um caseiro e o gerente alegam que os índios foram até lá para roubar pertences e animais, como porcos. As forças de segurança foram acionadas a partir deste momento. Segundo os funcionários, os indígenas estariam armados.

Os indígenas negam o roubo dos pertences na sede da Santa Maria e reclamam da “invasão” das casas pela Polícia Militar. Eles mostram portas danificadas e dizem que as ferramentas para trabalho na roça foram levadas.

“O helicóptero veio baixando aqui e formou aquele escudo de policial. Entraram nas casas (policiais) e quebraram até aquela porta. Levaram as coisas da roça, facão, enxada. Não temos mais como plantar. Levaram até um javali”.

Os indígenas garantem que as terras da Fazenda Santa Maria são de ocupação ancestral e que não vão deixar a área que já vivem. A promessa é de resistência até a morte. “Depois que fizemos essa retomada aqui, decidimos que não vamos sair mais. Eu vou morrer aqui, como minha avó, meu avô”, completa um dos indígenas.

Indígenas após o ataque (Foto: Marcos Ermínio)

A cidade de Caarapó possui grande população indígena e além da questão agrária e da retomada de terras pelos indígenas, recentemente, um fazendeiro foi morto por um índio. Crime de latrocínio, que não tem relação direta com as ocupações, mas que acordou ainda mais os ânimos na região.

Alto escalão

O comandante-geral da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, Waldir Ribeiro Acosta, e o secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Antonio Carlos Videira, participaram da ação na fazenda Santa Maria, em Caarapó, que foi palco de um confronto entre índios e fazendeiros.

O coronel Edson Furtado, responsável pela comunicação social da corporação, confirmou que os dois foram acionados até o local para acompanhar a situação. “Eles estiveram sim (no local), foram acionados e foram lá para ver a situação e dar um suporte”, afirmou.

De acordo com o Governo do Estado, um indígena de 70 anos foi preso por roubo e homens da Força Nacional que atuam em Mato Grosso do Sul serão deslocados para atuar na área.

Área foi retomada em 2016. (Foto: Marcos Ermínio)

Por ser uma área reivindicada por indígenas, inclusive, tendo sido reconhecida pela Funai (Fundação Nacional do Índio) como terra tradicional indígenas em 2016, intervenções policiais no local devem ser feitas com autorização federal.

Investigação

O Ministério Público Federal (MPF) acusa a Polícia Militar de agir sem ordem judicial. De acordo com o órgão, os proprietários da fazenda acionaram a PM, que fez a “reintegração de posse sem qualquer ordem judicial”.

O MPF informou, através de nota, que a ação dos policiais não foi respaldada por nenhuma ordem judicial. Ainda de acordo com o MPF, não havia ordem de reintegração de posse para a área e nem mandado de busca e apreensão.

Um inquérito civil público foi instaurado para investigar os acontecimentos. “Apenas após a conclusão da investigação será possível apontar se houve ilegalidade na operação”, diz nota enviada ao Jornal Midiamax.

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