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Indígenas afirmam que exoneração do presidente da Funai não interfere em MS

Lideranças também comentaram insatisfação com atual coordenação 

Depois da exoneração do até então presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), Franklimberg Ribeiro de Freitas, nesta terça-feira (17), a reportagem do Jornal Midiamax conversou com lideranças indígenas em MS para apurar quais reflexos saída de Franklimberg Ribeiro de Freitas, causaria na Funai regional, com sede em Campo Grande.

Para o índio Terena, Otoniel, exoneração não interfere em nada no desencadear da fundação aqui no Estado, pois conforme ele, prioridade seria conseguir a exoneração do atual coordenador da Funai/MS, Paulo Rios.

“Não fizemos questão da permanência dele também, porque houve algumas solicitações que não foram atendidas. Então a maior preocupação seria a exoneração do atual coordenador, que não está fazendo um trabalho para as lideranças, então para nós não faz diferença”, afirmou o morador de Sidrolândia.

Já uma das lideranças dos Kadiwéus, Lourival Matchua, lamentou a exoneração do presidente, explicando que Franklimberg até lutava pelos direitos indígenas, mas pressão dos ruralistas teriam influenciado na decisão do presidente Michel Temer (MDB). Lourival também criticou a atual coordenação da Funai/MS.

“A exoneração do presidente foi à classe ruralista e tem um retrocesso por causa das demarcações e territórios indígenas. Eles [governo] estão deixando de cumprir com o que está na Constituição, que é a questão da demarcação dos territórios. Ele [ex-presidente] estava cumprindo com o seu valor, mas estava desagradando a classe ruralista”, declarou.

Lourival ainda pontou que várias etnias do Estado já entraram com pedido de exoneração do atual coordenador regional, Paulo Rios, que segundo ele, também foi uma nomeação contrária ao que os indígenas querem como representatividade.

“O atual coordenador que está hoje, é uma indicação do MDB, que atende a classe capitalista”, destacou o Kadiwéu.

Coordenador da Funai

Para o coordenador da Funai/MS, Paulo Rios, exoneração do presidente é uma situação que não compete à fundação regional. Paulo disse que pela manhã desta quarta-feira (18) aconteceu uma reunião com o quadro funcional do órgão e foi questionado se exoneração refletiria em Mato Grosso do Sul.

“Eu disse que continuaríamos trabalhando e criando expectativa de uma mudança efetiva da qual nos colocamos a fazer, que é a reestruturação da Funai”, afirmou o coordenador.

A reportagem questionou Rios sobre a reivindicação das lideranças entrevistadas, que inclusive realizaram ocupação na sede da Funai no último dia 2 pedindo sua exoneração, e para ele, situação é normal, visto que há lideranças que apoiam a sua gestão. “Existe uma situação dentro dos Kadiwéus que me apoia, a grande maioria que me apoia. De lá (Kadiwéus) tem seis aldeias, cinco me apoiam. Dos Terenas, eu tenho praticamente 40 aldeias que me apoiam”, relatou o coordenador.

Questionado sobre a insatisfação do que, segundo ele, seria a minoria dos indígenas, o coordenador comparou a rejeição como um torcedor de clube de futebol.

“Por exemplo, eu estou insatisfeito com o Flamengo, mas nem por isso eu vou deixar de gostar do Flamengo. Eu quero que falem da minha gestão, pois aí é outra história. Agora falar que está insatisfeito, é normal. Tem que pontuar o porquê está insatisfeito e apresentar números, porque a minha gestão está sendo de tamanha serventia”, finalizou Paulo.

Exoneração

Conforme divulgado pelo Estadão, o presidente Michel Temer acolheu o pedido apresentado pela bancada ruralista e exonerou o presidente da Funai, Franklimberg Ribeiro de Freitas. Franklimberg já foi comunicado da decisão e deverá deixar o cargo até a próxima segunda-feira.

Cerca de 40 deputados e senadores da bancada ruralista apresentaram uma carta a Temer solicitando a demissão, sob argumento de que o atual presidente da Funai não estaria considerando projetos do setor.

Em nota, a Frente Parlamentar Agropecuária afirmou que o pedido de “exoneração imediata” do então presidente da Funai foi “demanda trazida por populações indígenas insatisfeitas com o desempenho” de Franklimberg. Segundo a nota, mais de 170 líderes indígenas assinaram ofício entregue a Temer e, “a partir desta reivindicação, a FPA solicitou a substituição” do dirigente.

A reportagem apurou que o Ministério da Justiça, ao qual a Funai é vinculada, tentou segurá-lo. Segundo fontes Franklimberg foi surpreendido com a decisão. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, admitiu que o momento para a exoneração preocupa. “É uma semana difícil, pelas celebrações do Dia do Índio. E, na semana que vem, são esperados 5 mil índios”, afirmou. Entre os dias 23 e 27 será realizado, em Brasília, o Acampamento Terra Livre, o principal encontro indígena do País.

Nesta terça-feira, 17, Franklimberg não quis comentar o assunto. A Funai também não se pronunciou. Entre os mais cotados para assumir o cargo estaria o diretor da Funai, Francisco Nunes, que teria a simpatia dos ruralistas.

Perfil

Franklimberg ocupa a presidência da fundação desde janeiro de 2017. Sua chegada ao órgão causou polêmica à época, por causa da entrada de militares para cargos na Funai. Doutor em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado Maior do Exército, Franklimberg é general de brigada, assessor de relações institucionais do Comando Militar da Amazônia. Comandou a 1.ª Brigada de Infantaria de Selva em Roraima e foi chefe do Centro de Operações do Comando Militar da Amazônia.

Na Funai, liberou a nomeação de servidores do concurso realizado em 2015 pela fundação e que venceria no ano passado. Em meio a uma de suas piores crises, a Funai também conseguiu o descontingenciamento de R$ 27 milhões e trocou de sede em Brasília, o que, segundo a instituição, gerou economia de R$ 400 mil por mês.

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