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Destinação de salas para universidade é ‘luz no fim do túnel’ para antiga rodoviária

Prefeito confirmou que negocia com universidade paulista

“Não dá nem para acreditar que aqui andava tanta gente. Era tão frequentado, era passeio de muita família vir aqui. Como se fosse um shopping. Tinha uma pizzaria famosa. Agora não tem mais nada”, comenta o aposentado Luiz Vieira, 69 anos, que estava num endereço atualmente pouco célebre de Campo Grande, no bairro Amambai, entre as ruas Dom Aquino e Barão do Rio Branco, logo após a Avenida Ernesto Geisel.

Na localidade, está um gigante abandonado de Campo Grande, o Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste, onde, até fevereiro de 2010, funcionou a Estação Rodoviária Heitor Eduardo Laburu, a antiga rodoviária de Campo Grande. Lá, insegurança no entorno já era uma constante, antes mesmo da estrutura ser transferida do ponto e ir para a Avenida Gury Marques, na saída para São Paulo.

Porém, os problemas inegavelmente se agravaram de 2010 para cá: atualmente, as instalações físicas externas do prédio tornaram-se lar de dezenas de moradores de rua – a maioria sofre com dependência química. Esse é o principal sintoma do abandono a que a região foi submetida nos últimos anos.

Dentre as consequências, a insegurança cada vez mais intensa faz com que lojistas amarguem prejuízos, seja decorrente da falta de clientes, seja pelos frequentes furtos, assaltos e arrombamentos. O entorno da antiga rodoviária é uma área cinzentas de Campo Grande, para a qual poucos se arriscam a ir.

Prédio já foi “shopping center” de Campo Grande (Foto: Marcos Ermínio/Midiamax)

Abandono e Revitalização

“Vamos sair de lá porque não nos sentimos seguros. Desde que a Guarda Municipal saiu do local, a gente tem menos clientes e fomos roubados. Dois meses atrás, entraram por uma janela e roubaram computador e televisão. O que vai ser amanhã?”, aponta o empresário João Alves Ribeiro, proprietário do Backline Studio, em processo de mudança do prédio.

Moradores de rua e dependentes químicos agravam problema social enfrentado no entorno (Foto: Marcos Ermínio/Midiamax)

Ele é só mais um dos empreendedores que anunciaram a saída do Terminal d’Oeste, que tem 25 mil m², 236 salas, incluindo dois cinemas desativados e uma área da Prefeitura de Campo Grande.

O prédio chegou a ser interditado duas vezes pelo Corpo de Bombeiros por não apresentar as exigências de segurança para que possa funcionar sem oferecer riscos. Ainda há um prazo em curso e boa vontade para fazer as adequações não falta. O problema sempre esbarra na questão financeira.

“Num universo de 236 salas, temos cerca de 20 proprietários que são adimplentes com a taxa de condomínio e que por isso sustentam toda a estrutura. De certa forma, eu entendo, pois existe medo de investir e não ter retorno. Mas, também é por isso que temos mais dificuldades. Sempre é a questão financeira”, relata Rosane Nely Lima, a síndica do Centro Comercial Condomínio Terminal do Oeste que há mais de uma década está à frente do prédio.

Uma das esperanças para o local são as intervenções decorrentes da revitalização da área central de Campo Grande. O projeto Reviva Campo Grande, cuja primeira etapa foi lançada da terça-feira (15), contemplará a região com toda a revitalização do entorno, de recapeamento, paisagismo, e outras intervenções na malha urbana, como iluminação e videomonitoramento.

“Depois que a PM (Polícia Militar) passou a fazer as rondas ostensivas, a gente notou uma melhora muito grande. Os furtos praticamente acabaram. Mas isso não resolve o problema. Os dependentes químicos vão para outro lugar, outra região que vai sofrer o que a gente sofre aqui. Não queremos que o problema seja só transferido, é preciso haver políticas públicas”, comenta Rosane.

De fato, a Guarda Civil Municipal tem intensificado as rondas no entorno, principalmente após um homem ser assassinado ao tentar defender uma mulher de um assalto, no dia 7 de maio.

“A Secretaria Especial de Segurança e Defesa Social (Sesdes) trabalha para que a Gerência Operacional Centro receba sua nova sede no entorno da antiga rodoviária fazendo com que a segurança no local seja mais efetiva”, traz uma nota oficial da Prefeitura de Campo Grande.

Políticas públicas e destinação

Caso universidade se confirme, lojistas estariam prontos a redirecionar “alvo” dos negócios (Foto: Marcos Ermínio/Midiamax)

Enquanto o poder público busca equacionar o problema da segurança pública na região, a questão social que emerge da situação vivida pelo entorno se relaciona intimamente com os moradores de rua e dependentes químicos. Relatos de assaltos e arrombamentos já ultrapassaram o “limite” da Avenida Ernesto Geisel e andarilhos e usuários de drogas são vistos em ruas e praças do centro da cidade.

De acordo com a Prefeitura de Campo Grande, a região é alvo de buscas ativas de equipes da SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social) especializadas em abordagem social, dentro do o PAIC (Programa de Ação Integrada e Continuada).  Diariamente, as equipes passam pelo entorno da antiga rodoviária fazendo oferta do serviço às pessoas.

“Mas infelizmente essas pessoas não discernem sobre o que é bom ou não para elas. Preferem permanecer nas trevas e nós não podemos internar ninguém contra a vontade”, destaca o prefeito de Campo Grande, Marquinhos Trad (PSD). “É difícil equacionar, mas queremos que a revitalização do espaço também aconteça por meio da ocupação”, revela o prefeito.

Por ocupação, Trad entende a destinação de parte das salas desocupadas no prédio. “Queremos trazer uma universidade de São Paulo para o local, para funcionar nos três turnos. Com essa ocupação, poderemos resolver tanto o problema do entorno, já que gradativamente as pessoas deixarão o local, como o problema do comércio na região, que sofre muito com a falta de cliente”, revela.

Prédio já foi interditado duas vezes pelo Corpo de Bombeiros (Foto: Marcos Ermínio/Midiamax)

Rosane aguarda a confirmação com cautela, já que propostas semelhantes já foram anunciadas nos últimos oito anos, nenhuma delas efetivamente implementada.

“Os lojistas discutem esse direcionamento dos serviços. Uma universidade vai precisar de lanchonetes, restaurantes, casas de fotocópia… Não se pode fazer uma revitalização só da estrutura, mas das pessoas também. A gente nunca ficou parado, sempre procuramos qualificação e melhoria no atendimento. Estamos todos prontos, esperamos só a oportunidade”, finaliza.

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