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Vizinhos de bares alternativos reclamam de ‘onda de pichação’ na região da Orla Ferroviária

Moradores e comerciantes reclamam que prédios ocupados e conservados viraram alvo

Vizinhos de bares alternativos que se instalaram no entorno da Orla Ferroviária, em Campo Grande, reclamam de uma ‘onda de pichação’ que atingiu a maior parte dos imóveis na região. Ao contrário do ‘pixo’, movimento social de protesto que marca visualmente prédios castigados pela degradação urbana, as marcações gráficas no local atingem casas, lojas e até templos religiosos ocupados e que tinham a manutenção em dia.

“Tem algumas manifestações lindas, com grafites e grafismos legais que são feitas com autorização dos donos, porque a vizinhança aqui não acha ruim a ocupação da Orla Ferroviária. Mas ultimamente uns idiotas começaram a sari com uma lata de spray na mão achando que são artistas, e só fazem eles mesmos degradar o local. Não posso acreditar que essas pichações são dos militantes conscientes ligados ao ‘pixo’. São de uns maloqueiros”, dispara um comerciante que mantém loja na região há 25 anos.

Segundo ele, os ataques de pichadores atingem principalmente prédios ocupados. “O que revela que não são os meninos do pixo, é que não existe critério para escolher prédios abandonados, por exemplo, e protestar neles contra a ocupação urbana desordenada. Saem apenas fazendo sinais que copiam pela internet e acham legais”, reclama.

No entanto, apesar de as pichações coincidirem com a chegada de bares alternativos à região, a postura dos vizinhos é de apoio aos estabelecimentos. “A gente não quer prejudicar os bares. É claro que vemos a ligação, mas acho que ocupar a região é importante para a gente. Prefiro os bares com público bem específico do que imóveis vazios e cracolândia. Só precisamos conscientizar e coibir esses pichadores, porque eles não estão ajudando em nada”, conclui o comerciante.

‘Sem autorização, é vandalismo’

Para os comerciantes, o pixo prejudica a estética do estabelecimento e afasta clientes. (Foto: Marcos Ermínio)

Outro vizinho que reclama das pichações, o comerciante Abud Tchatcha, conta que foi o carnaval que voltou os olhos da cidade para a região. Abud é dono de uma ótica na rua Antônio Maria Coelho, que está no endereço há 10 anos, e afirma que a pichação começou há poucos anos.

“Antes não tinha isso, mas começaram a surgir festas e bares aqui na região, foi então que começou este vandalismo. Pra mim é vandalismo porque quando é artista, é grafiteiro. O grafiteiro desenha e tem a permissão do dono para fazer sua arte”, defende Abud.

O coordenador de núcleo da igreja Seicho-no-ie, Pedro Vinholi, compartilha da opinião. Para ele, a presença dos bares influenciou, mas não é o principal fator. “Eu acho que as boates influenciaram muito porque antes não tinha isso, estamos aqui há 38 anos. Agora, uma delas [boates] está fechada e percebi que diminuiu a pichação, até pintamos aqui semana passada”.

“Nem pintei na parte de cima porque sei que atrai, é um desafio para eles e iriam pichar novamente”, diz Pedro Vinholi.

Já Jhonatan, um dos resistentes, que mantém uma loja de manutenção em equipamentos eletrônicos na região, acha que os bares não têm influência no problema. “Eu acho que não tem nada a ver. Se até eles estão sendo pichados… Mesmo se fosse, o dono não tem como controlar quem são os seus clientes”, defende.

Jhonatas conta que já nem se incomoda com as pichações. Para ele, os ‘rabiscos’ na parede são só um reflexo da criminalidade na região. “Desde que houve a revitalização na Orla, tem mais moradores de rua e também a vinda de adolescentes que gostam de fazer bagunça por aqui”.

‘Eles pichavam muito… a gente lavava’

O dono de um dos bares próximos à Orla, Kenzo Minata, admite que as pichações aumentaram com a chegada do estabelecimento à região, mas não endossa. “As coisas que acontecem na rua não são condizentes com a nossa proposta e muito menos são de responsabilidade legal do bar. Quem tem que cuidar dos espaços públicos são as autoridades. É muito errado acusar os espaços culturais como responsáveis pelos problemas. O estado e as autoridades têm que tomar conta de tudo isso”, explica.

A Prefeitura informou que uma parceria com as polícias Civil e Militar, possibilitou à Guarda Municipal intensificar o patrulhamento diurno e noturno na região da Orla Ferroviária. “O cidadão também tem disponível o telefone 153 da GCM (Guarda Civil Municipal), cuja ligação é gratuita, no qual ele poderá fazer denúncias, sendo enviada imediatamente ao local a viatura mais próxima”, informa a administração.

A cozinheira Solange de Jesus trabalha em um restaurante próximo à Orla e acredita que as rondas constantes da polícia têm ajudado a diminuir a criminalidade e, consequentemente, as pichações. “Eles pichavam muito, antes a gente lavava para tentar tirar ou até pintávamos, mas desistimos. Agora melhorou com a presença da polícia à noite”.

‘Pixo’ ou Pichação: qual a diferença?

A pichação é qualquer ato de escrever em muros, fachadas ou monumentos, e pode ter a mera intenção de vandalizar. Já o ‘pixo’ é a pichação usada como forma de protesto, assinatura, demarcação ou até declaração de amor. Nem sempre o pixo tem autorização dos donos, porque a intenção é justamente chamar a atenção da sociedade para espaços urbanos mal ocupados que levam à degradação arquitetônica ou à segregação social, por exemplo.

Um dos bares da região terá fachada rotativa para incentivar o grafite e manifestações culturais. (Foto: Marcos Ermínio)

Já o grafite é uma manifestação artística em espaços abertos e amplos, públicos ou não. Na vizinhança da Orla Ferroviária há diversas obras, e os comerciantes afirmam que, ao contrário da pichação, o grafite valoriza a região.

“A pichação é um vandalismo, traz um prejuízo visual para a fachada do nosso comércio”, afirma Abud. Para Pedro Vinholi, a pichação traz o aspecto de sujeira para o prédio. “O grafite bem feito é cultura, mas isso aqui não é grafite. A pichação é um rabisco, é até usado para código de gangues”.

Em reforma, um dos bares da região substituiu as paredes pretas por uma fachada branca e cheia de grafites. O sócio afirma que a cada mês, um artista assinará a arte nas paredes. “Foi uma forma de mostramos que não somos condizentes com as pichações, mas sim com as manifestações culturais”.

Apesar de parecerem indecifráveis, as letras têm significado entre os pichadores. (Foto: Marcos Ermínio)

Produtos da cultura do hip hop, o grafite e a pichação são formas de manifestação cultural, social ou política no centro da cidade. Para o grafiteiro Antônio*, o que difere os dois é o estilo. “O grafite trabalha cor, técnica e desenho, já a pichação nem tanto. Ainda assim, a pichação tem seus padrões de estética, que são estabelecidos dentro do meio, como as letras retas e pontudas. Mas as duas técnicas são elementos da rua, vieram para substituir o crime pela arte”, explica.

Os símbolos usados para as pichações são indecifráveis para os comerciantes, mas possuem seus significados. “O pixo surgiu como um manifesto político, com frases e tal, mas com o tempo de tornou também uma forma de demarcação”, conclui. (* nomes fictícios a pedido dos entrevistados).

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