Vôo de helicóptero assusta acampamento de índios em área de conflito

Terra é a mesma onde líder indígena foi morto em 2003

Localizada em Juti, município distante 311 quilômetros de Campo Greandeo no extremo sul do Estado, e palco de conflitos ao longo das últimas décadas, a fazenda Brasília do Sul, que está em processo de reconhecimento como terra indígena desde 2010, volta a ser notícia neste sábado. No local, onde em 2003 foi morto o cacique Marcos Veron, considerado um dos mártires da luta dos índios pela terra em Mato Grosso do Sul, guarani-kaiowás acampados em um trecho da área  relatam ameaças que teriam sofrido desde a manhã deste sábado, por homens encapuzados que teriam chegado de helicóptero. Para a Funai (Fundação Nacional do Índio), o que pode ter ocorrido é a passagem no local de aviões da operação contra o tráfico que está sendo realizada pela Força Aérea na região.

O relato sobre as supostas ameaças foi feito ao Jornal Midiamax pela filha de Marcons Veron, Valdelice Veron, de 38 anos, uma liderança na área de retomada, como os índios chamam o acampamento. Segundo ela, por volta das 6h, três helicópteros sobrevoaram o local, um deles parou em uma área da fazenda, e outro perto do acampamento onde os índios estão.

"Eles desceram, fizeram as mulheres ajoelhar, a dona Luiza, seus filhos, sua mãe, as indigenas.  Fizeram ajoelhar e se corre-se ia morrer". Nós ficamos vendo, do outro lado. Segundo Valdelice, eles estavam encapuzados, e disseram que podem voltar novamente.

"Agora ainda continuam os sobrevôos, com avião pequeno", afirma. Segundo ela, a comunidade está com medo e por isso o relato do que ocorreu hoje está sendo enviado a entidades de proteção aos direitos dos índios e até à Onu (Organização das Nações Unidas), por meio de representantes no Brasil que lidam com direitos humanos.

Indagada se já acionou a Polícia Federal e a Funai (Fundação Nacional do Índio), a guarani-kaiowá disse já ter tentado, mas ainda não conseguiu, por ser fim de semana. "A gente vai juntar mais gente de outras duas areas, estamos mobilizando pra gente se juntar, porque a gente não sabe o que vai acontecer", informou.

O DOF (Departamento de Operações de Fronteira), que costuma ser o primeiro a ter informações sobre problemas desse tipo por estar mais próximo, relatou que não chegou ao conhecimento da unidade que esteja havendo problemas na fazenda.

O coordenador da Funai em Dourados, José Vitor Dalla Nora, informou que, diante de informações sobre o temor entre os índios, buscou informações e foi alertado sobre a realização de operação das Forças Armadas, sem que a comunidade tenha conhecimento. Para ele, os índios ficaram com receio dos helicópteros militares. José Vitor disse não ter conhecimento sobre o relato de que os ocupantes dos aparelhos tenham descido no local.

O Jornal Midiamax tentou contato com a FAB, mas ninguém atendeu ao telefone fixo, em razão de ser fim de semana.a

Área conflituosa

A fazenda Brasília do Sul é terreno de disputa desde 1954, com diversas ocupações, conflitos, expulsões dos índios, e a morte emblemática de Marcos Veron, em janeiro de 2003. O caso foi tão polêmico que o júri dos acusados pelo assassinato teve de ser realizado em São Paulo. Foi apontado pelo MPF (Ministério Público Federal) o envolvimento de 27 pessoas. Em 2001, três funcionários da fazenda foram à júri, em São Paulo, e acabaram inocentados do crime de homicídio, sendo condenados por por seis sequestros, tortura e formação de quadrilha armada. O dono da fazenda, Jacintho Honório, foi apontado como mandante, em outro processo, que ainda não teve resolução.

A propriedade rural de 9.700 hectares é chamada pelos indígenas de Takuara. A área aguarda a homologação pelo governo federal como terra indígena e é alvo de processo no STF (SUpremo Tribunal Federal), em que os proprietários no papel questionam a identificação como terra indígena.

Os estudos de identificação da terra iniciaram em 1999 e em 2010 o Ministério da Justiça publicou a portaria declaratória, reconhecendo aos indígenas a tradicionalidade do território. Essa portaria foi questionada e derrubada no Supremo e a questão não avançou até hoje, seja por uma homologação como aldeia seja como negativa do direito dos índios.

(Foto: MPF)

(Matéria editada às 15h10 para acréscimo de informação)

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