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Alunos terena são chamados de ‘bugres’ por filha de político em rede social

Ela diz que amigos pegaram aparelho sem que ela visse

Uma postagem com fotos de adolescentes Terena – alunos da Escola Municipal Visconde de Taunay, em Anastácio, a 134 km de Campo Grande – no Facebook, acabou virando confusão nesta terça-feira (6). A filha de um político em Mato Grosso do Sul teria comentado na foto e gerado indignação entre os adolescentes.

Os adolescentes frequentam o 7º, 8º e 9º ano na Escola, e têm entre 13 e 16 anos. A garota não estuda no local. Ainda assim, ela teria comentado ‘só bugres’ na fotografia postada pelos colegas, e o termo foi considerado ofensivo por membros .

Kassiely Odete, 19, é Terena e amiga dos adolescentes em questão. A mãe dela também é Terena e dirige a escola. Kassiely relatou que a escola abrange tanto alunos Terena quanto não indígenas e que nunca havia registrado nenhum caso de discriminação. Motivo pelo qual, segundo ela, o caso gerou ‘polêmica’.

O pai explicou ao Jornal Midiamax que conversou com a filha. A adolescente, que estuda em Aquidauana, explicou que amigos teriam pegado seu celular durante o intervalo e comentado na fotografia. Ele ainda contou que ela não teria visto ‘maldade’ no comentário. Arrependida, a adolescente pretende pedir desculpas e o pai esclareceu que os dois colegas, supostos autores do comentário, também admitiram que foram eles os responsáveis.

O político diz que é indigenista e defensor da causa indígena no Estado. À reportagem, ele afirmou que o termo ‘bugre’ é, inclusive, utilizado como apelido ‘carinhoso’ entre a família, e que a filha nunca teve a intenção de ofender ninguém.

Por que o termo é ofensivo?

A origem da palavra vem do francês bougre, que de acordo com o dicionário Houaiss possui o primeiro registro no ano de 1172 e significa ‘herético’. Os búlgaros foram considerados heréticos, ou seja, ‘incultos e não cristãos’. Para os povos indígenas, o termo é utilizado para desqualificar suas origens étnicas, geralmente com tom pejorativo.

Pesquisador de sociologia, Luís Augusto De Mola Guisard escreveu sobre o termo em um artigo acadêmico, em que explica como ele passou a ser aplicado como ofensa aos povos indígenas:

“O termo era usado principalmente nos espaços públicos, especialmente em referência àqueles que possuíam características específicas ligadas a uma tradição indígena da região, mas poderia ser usado também em espaços mais reservados. Fica claro que o termo é pejorativo, para identificar aqueles que apresentam alguns traços físicos específicos: “cabelo de flecha, liso, escorrido”; “olho rasgado, nariz meio achatado”; “escuro sem ser negro”; que estão associados a aspectos culturais, sociais, psíquicos e econômicos também específicos: “o bugre é rústico, atrasado”; “o bugre verdadeiro é do mato, aquele que está escondido, mais agressivo e arredio”; “o bugre que está na cidade é mais dócil, pode ser trabalhador, mas é traiçoeiro”.

A associação entre povos indígenas e termos pejorativos em redes sociais já foi, inclusive, alvo do MPE-MS (Ministério Público Estadual). Em 2012, uma estudante de Dourados teria chamado os integrantes do grupo de rap ‘Bro Mc’s’, de ‘índios fedorentos’, também no Facebook. O caso foi entendido como racismo, mas a estudante foi absolvida pela Justiça.

O Brasil é signatário desde 1969, junto à ONU (Organização das Nações Unidas), da Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial, desde o ano de 1969. Sobre discriminação racial, a convenção afirma ser “qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseadas em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tem por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício num mesmo plano (em igualdade de condição), de direitos humanos e liberdades fundamentais no domínio político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro domínio de vida pública.” (Editado para adequação de conteúdo)

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