Tetraplégico, coordenador da Lava Jato usa capacete para digitar peças jurídicas

O coordenador de casos da Lava Jato em Brasília, Cláudio Drewes José de Siqueira, venceu a descrença de médicos e desembargadores, e contou sua história de superação para a Época.

Cláudio sofreu um acidente quando mergulhou de cabeça em uma pequena cachoeira em 1988, quando tinha apenas 16 anos. O poço estava raso e o garoto atingiu em cheio o fundo da cachoeira. Ele foi socorrido às pressas pelo pai e um amigo, mas quando chegou ao hospital, o diagnóstico mudaria a vida do rapaz: ele havia quebrado o pescoço em três alturas da vértebra cervical.

Ele precisou interromper os estudos no ensino médio e ficou internado por 15 meses, oito em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). A avaliação recebida foi que não conseguiria voltar a respirar sem a ajuda de aparelhos e morreria em pouco tempo em decorrência de complicações pulmonares provocadas pela lesão, além da perda quase completa dos movimentos.

No entanto, Cláudio, que hoje tem 47 anos, superou as expectativas médicas e, neste mês, o então procurador da República, assumiu a coordenação da Força-Tarefa Greenfield em Brasília, que investiga desvios milionários dos fundos de pensão de estatais e também cuida de desdobramentos da Lava Jato, como os pagamentos de propina na Caixa Econômica Federal que resultaram na prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB).

Foi na Greenfield que começaram as negociações de delação do megaempresário Joesley Batista e de outros personagens fundamentais na Lava Jato, como o doleiro Lúcio Funaro, e até do ex-ministro petista Antonio Palocci.

Drewes é tetraplégico e anda graças à ajuda de uma cadeira de rodas automática e move apenas a cabeça. Ele trabalha com o auxílio de um assistente para as tarefas do dia a dia e até desenvolveu uma técnica que o permite digitar no computador: veste um capacete com uma antena adaptada no queixo, que usa para bater as teclas.

Trajetória

O pai de Cláudio, Comte José de Siqueira, que era médico, discordou do diagnóstico catastrófico feito em 1988 e encorajou o filho a viver. Levou-o para sessões extensas de fisioterapia, que melhoraram sua capacidade respiratória e permitiram que saísse do hospital. O adolescente teve alta e decidiu voltar a estudar. Queria se tornar juiz federal. Com todas as dificuldades provocadas por sua condição física, submeteu-se ao vestibular de Direito na Universidade de Brasília (UnB), em 1990.

Auxiliado por um funcionário, ele resolvia as questões mentalmente e ditava as respostas para serem preenchidas. “Foi um esforço hercúleo. Eu tinha de ditar todos os cálculos de matemática, por exemplo, e não tinha nenhum tempo a mais do que os outros para fazer a prova. Passei na segunda tentativa, em 1991”, contou para a Época.

No primeiro ano da faculdade, ele foi aluno de uma procuradora do Ministério Público Federal. Foi o contato com ela que o fez mudar de ideia: em vez de juiz, ele decidiu que, no cargo de procurador, poderia acompanhar e exigir a implementação de políticas públicas. Enfrentar os concursos públicos foi ainda mais difícil por um fator adicional: o preconceito dos examinadores. “Lidar com as barreiras físicas é até fácil. O difícil são as barreiras invisíveis. Fui discriminado diversas vezes em concursos públicos. Tentei o Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT ), mas o presidente da comissão do concurso me chamou para conversar e disse que eu não poderia me candidatar. Disse que indeferiria minha candidatura”, relatou o procurador. “Então perguntei a ele: ‘O que você faz que eu não faço? Ler, eu consigo ler. Falar, eu consigo falar. Digitar, mesmo com minhas limitações, eu também consigo digitar. Carregar processos eu não posso, mas eu duvido que o senhor carregue’”, recordou.

Após algumas tentativas, Drewes foi aprovado para o cargo de procurador do estado de Goiás e se mudou para Goiânia. Depois, em 2002, finalmente passou no concurso para procurador da República, cargo que assumiu em 2003. Permaneceu em Goiânia, onde atuou na área de direitos dos cidadãos, com foco em pessoas com deficiência, e em ofícios criminais e de improbidade administrativa. Também exerceu a chefia da Procuradoria da República em Goiás. Posteriormente, foi transferido para Brasília.

Em Brasília

Em uma sexta-feira, 21 de julho de 2017, Drewes deixou a sede da Procuradoria, em Brasília, se sentindo mal, com dificuldade para respirar. No sábado, dia em que sua mulher faria aniversário, acordou completamente sem ar. A condição havia se agravado, e o procurador estava sofrendo uma parada cardiorrespiratória. “Fiquei dez minutos morto”, lembrou.

Reanimado e levado às pressas para um hospital, Drewes foi submetido a uma traqueostomia, procedimento cirúrgico que consiste em fazer uma abertura na traqueia para facilitar a entrada de oxigênio. Ficou 45 dias internado. No hospital, descobriu que seu pulmão tinha se reduzido, devido à falta de atividades físicas, e que precisaria fazer diariamente quatro horas de fisioterapia respiratória, para forçar a expansão dos pulmões e melhorar sua capacidade.

Casada com Drewes há dez anos, Gislana Karla, de 33 anos, conta que os médicos não acreditavam que ele sairia vivo ou sem sequelas neurológicas do episódio. Quando ainda estava submetido à traqueostomia, sem poder falar, ele usava uma placa com desenhos para se comunicar. “Nessa placa, havia o desenho de uma carteira de trabalho. Ele sempre apontava para ela com um gesto de cabeça indicando que queria sair dali para voltar logo ao gabinete”, lembrou Gislana.

Em três meses, ele estava de volta ao primeiro andar da Procuradoria da República no Distrito Federal, onde até hoje funciona seu gabinete de trabalho. Pouco depois do episódio, no fim de 2018, o procurador foi convidado para ingressar na força-tarefa da Greenfield, por sua experiência em casos criminais e de improbidade administrativa.

Drewes dividirá os trabalhos de coordenação da Greenfield com a procuradora Sara Moreira de Souza Leite, de 32 anos, que atuou no acordo de leniência Tribunal de Justiça do Distrito Federal — espécie de delação premiada para empresas — do grupo J&F e nos casos de corrupção na Caixa. Foi ela uma das responsáveis pelo pedido de prisão do ex-ministro Geddel Vieira Lima depois que uma operação da Polícia Federal encontrou R$ 51 milhões em um apartamento em Salvador. Antes de ingressar no Ministério Público Federal, a procuradora ainda atuou em uma Vara especializada em lavagem de dinheiro na Justiça Federal do Ceará e em investigações financeiras na Procuradoria do Banco Central.

A força-tarefa comandada por Cláudio Drewes e Sara Moreira é composta de mais três procuradores com dedicação exclusiva e outros sete colaboradores eventuais. A primeira fase da operação foi deflagrada em 5 de setembro de 2016, com foco em rombos bilionários nos principais fundos de pensão do país, que teriam lesado 1,2 milhão de pensionistas: Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal), Petros (da Petrobras) e Previ (do Banco do Brasil).

Posteriormente, as investigações se expandiram para desvios em bancos públicos e no fundo de investimentos do FGTS. A força-tarefa contabiliza R$ 11,1 bilhões em valores recuperados por meio de acordos de delação — feitos por pessoas físicas — ou de leniência — feitos por pessoas jurídicas —, 22 ações penais na Justiça com mais de 100 réus e cinco ações de improbidade administrativa que pedem a restituição de mais valores aos cofres públicos.

Até então, a força-tarefa era coordenada pelo procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes. Foi ele quem iniciou as negociações de delação premiada com Joesley Batista, do grupo J&F, e costurou o acordo de leniência assinado com o grupo empresarial, que prevê o ressarcimento de R$ 10,3 bilhões aos cofres públicos pelos crimes cometidos. A mudança na coordenação, segundo Lopes, ocorreu para “despersonalizar” o comando da operação e para haver uma alternância no cargo.

Lopes, que continuará como membro da força-tarefa, ressaltou que os ataques sofridos pela Lava Jato em Curitiba podem impactar outras operações de combate à corrupção pelo país. “O ataque constante à Lava Jato é preocupante não somente porque impacta essa operação, mas também a todos os seus desdobramentos e a todas as grandes operações de combate à corrupção no país. É importante, portanto, preservar e defender a Lava Jato contra ataques injustos e excessivos”, afirmou.

Nessa nova etapa, a força-tarefa da Greenfield tem ainda pela frente 200 procedimentos de investigação em andamento e 20 terabytes de provas e documentos apreendidos para análise. Um dos focos dos novos coordenadores será recomendar melhorias na gestão dos fundos de pensão para evitar fraudes e prejuízos em investimentos. Na semana passada, por exemplo, o secretário de Previdência do Ministério da Economia, Leonardo Rolim, procurou os coordenadores da força-tarefa para conversar sobre medidas que podem ser implementadas na gestão das entidades previdenciárias.

Para os procuradores, um dos possíveis entraves ao trabalho é a aprovação, pelo Senado, de um projeto de lei sobre abuso de autoridade — o assunto ainda terá de ser votado na Câmara. A proposta prevê que juízes e membros do Ministério Público fiquem sujeitos a uma pena de seis meses a dois anos de detenção, que pode ser cumprida no regime semiaberto ou aberto, se, entre outros pontos, atuarem com “evidente motivação político-partidária”, sem explicar de que forma isso pode ficar caracterizado.

“A lei de abuso de autoridade é muito antiga e precisa ser atualizada, mas o problema é a forma como estão fazendo isso. Parece evidente que a intenção é prejudicar o trabalho das grandes operações, afetando o combate à corrupção. Vemos um risco de retrocesso, em vez de aprimoramento”, afirmou a procuradora Sara Moreira Leite.

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