Mandetta admite possível saída, mas nega disputa ‘maniqueísta’ com Bolsonaro

Ministro da Saúde reforça que orientou secretários da pasta a colaborarem na eventual transição e disse ter discordância de ‘visão’ com presidente

Em coletiva na qual, ao lado de seu secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, e do secretário-executivo e possível sucessor, João Gabbardo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, deixou claro que sua saída do cargo é algo já digerido por ele e sua equipe. Contudo, a ideia é de que saiam juntos. A demissão, aguardada para os próximos dias, é resultado da avaliação destoante da do presidente Jair Bolsonaro quando aos rumos que o país deve tomar para enfrentar a pandemia de coronavírus (Covid-19).

Mandetta defende o isolamento horizontal, de toda a população, para conter o avanço do coronavírus, e se mostrou defensor do uso da cloroquina com cautela. Bolsonaro, por sua vez, quer que sejam mantidos isolados apenas idosos e grupos de risco (como doentes crônicos) e é um entusiasta do medicamento, também apoiado pelo presidente norte-americano, Donald Trump. A relação entre ambos se degradou ao longo de semanas, chegando ao auge com entrevista do ministro à TV Globo na qual ele apontou que a população sente falta de uma visão unificada do governo sobre a pandemia.

“Parece que sou contra o presidente e ele contra mim. Não, são visões diferentes de um mesmo problema. Se fosse uma visão única seria fácil de solucionar. Não é um problema maniqueísta, não é preto e branco, tem o cinza”, afirmou o ministro, defendendo que seu trabalho, já elogiado pelo Banco Mundial e OMS (Organização Mundial de Saúde) mostra números que conseguiram segurar o avanço da doença.

Mandetta ainda enumerou problemas a serem solucionados, como a falta de ventiladores mecânicos –o qual foi feita “engenharia reversa” em equipamentos e fechado contrato para 15 mil a serem entregues até agosto– e de EPIs (equipamentos de proteção individual), em vias de chegarem da China para os profissionais de saúde. Ainda assim, deixou claro que ele e sua equipe não são “insubstituíveis” e que sua equipe foi orientada a, com sua saída, permanecer o quanto for necessário para dar suporte aos novos comandantes da pasta.

O ministro fez agradecimentos públicos às colaborações vindas dos ministros Paulo Guedes (Economia), Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) e Tarcísio Freitas (Infraestrutura), que lhe deram suporte com recursos, condições de trabalho ao pessoal da Saúde e logística de distribuição de insumos. Ele ainda citou o general Braga Neto (Casa Civil), por uma “coordenação do grupo de trabalho fantástica, ele tem domínio total da situação”.

Gabbado, por sua vez, comentou o fato de ser lembrado como ministeriável. Desde 1981 no Ministério da Saúde, ele prometeu “não abandonar o barco”. “Fico no Ministério da Saúde o tempo que for necessário com tranquilidade, porque tenho consciência, porque a população espera a continuidade do nosso trabalho”, afirmou. “Não vou jogar no lixo o meu patrimônio”, reiterou.

A conduta, reforçou Mandetta, foi solicitada a todos os secretários da pasta. “Se vier outro e precisar, para ajudar, é para permanecer”, disse, lembrando-se que Wanderson de Oliveira chegou a emitir, pela manhã, carta na qual deixava clara sua saída do cargo –a demissão não foi aceita pelo ministro.

O secretário de Vigilância em Saúde também falou do tema, reforçando que os cargos comissionados que ocupam são passageiros, “e desta maneira trabalhamos para quem quer que venha dar continuidade”. “Nenhum de nós é insubstituível”, reforçou o técnico da Fiocruz.

Pilares

Mandetta, ao justificar ainda a permanência de seu staff, afirma que eles estão ali “pela defesa da vida, do SUS e da ciência, são os nossos três pilares de sustentação, olhando para a população”. O ministro reiterou que o inimigo é o coronavírus.

Questionados sobre o avanço da doença, que pelo segundo dia consecutivo registrou 200 mortos no Brasil, o comando do Ministério da Saúde apontou que a variação dos dados depende do abastecimento de informações pelos Estados.

Conforme Wanderson de Oliveira, os dados dos finais de semana costumam ser consolidados até quinta-feira, quando se espera um aumento expressivo, incluindo dos óbitos. “Estamos trabalhando arduamente para melhorar a informação”. A expectativa é de que um sistema integrado preste dados com maior precisão.

Mandetta, por sua vez, também destacou que o volume de mortes é vinculado ao “estoque de pacientes” que está internado diante do tempo médio de permanência em hospitais, prolongado em alguns casos. “O número de casos não acompanha o número de óbitos. A primeira paciente de Brasília, que gerou curiosidade, hoje tem 39 dias de internação e está em CTI. O tempo médio de permanência é muito longo. Tenho pacientes com um mês, 25 dias, 18 dias, 15 dias. Pegar o óbito como único parâmetro pega a ‘memória’ da doença”, explicou.

Cloroquina

Mandetta também comentou que pesquisas, no mundo todo, buscam um medicamento eficaz contra a Covid-19. No Brasil, o uso da cloroquina foi popularizado após defesa do presidente. Ele, porém, lembrou que os testes de uso compassivo começaram na China, epicentro da doença, onde optou-se por administrar a cloroquina primeiro a pacientes entubados e, depois, outros internados.

O uso domiciliar, segundo ele, não é recomendado porque a cloroquina causa arritmias cardíacas e, desta forma, o paciente precisa ser monitorado para se saber como ele reagirá à cloroquina –um problema maior para os pacientes acima de 60 anos, com mais chances de desenvolverem problemas cardíacos com o remédio.

Diante do efeito colateral, ele lembrou que 85% da população deve desenvolver sintomas “leves”, tratáveis com medicamentos menos perigosos, ou mesmo não manifestar efeitos do coronavírus. “Se a gente der remédio que causa batida diferente no coração e pode levar ao CTI para todos, aumentariam as arritmias nos CTIs”, afirmou, informando que uma série de conselhos de profissionais de medicina deve opinar sobre o uso da cloroquina –daí a negativa do Ministério da Saúde em criar parâmetro para seu uso.

Além disso, Mandetta afirma que a defesa de um medicamento nessas condições causaria corrida às farmácias –esgotando o medicamento para pacientes que precisam da cloroquina, como os de artrite e lúpus– e a falsa sensação de segurança ou mesmo o perigo de automedicação. Ainda assim, lembrou que cabe aos médicos avaliarem o uso do remédio. Sobre a compra de 5 milhões de unidades de cloroquina da Índia, ele lembrou que, caso o medicamento não seja usado contra a Covid-19, beneficiará os pacientes de outras doenças.

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