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Índios passam fome e bebem água contaminada em Coronel Sapucaia

Os alimentos deveriam chegar a cada 15 dias, mas, de acordo com os indígenas, sempre sofre atraso. Segundo o líder da comunidade, Ismarth Martins, representantes do órgão informaram que o alimento só chegará nesta quinta-feira (27). “É sempre assim, ninguém dá atenção para a gente se alguém de nós não morrer”, disse.
  • Foto: Caroline Maldonado

Mais de 130 indígenas Guarani Kaiowá, do acampamento Kurusu Amba, próximo a cidade de Coronel Sapucaia, estão há quase dois meses sem receber cestas básicas da Fundação Nacional do Índio (Funai). Segundo o líder da comunidade, Ismarth Martins, representantes do órgão informaram que o alimento só chegará nesta quinta-feira (27). “É sempre assim, ninguém dá atenção para a gente se alguém de nós não morrer”, disse.

A comunidade está acampada na área de reserva legal da fazenda Auxiliadora desde 2009 enquanto aguardam a demarcação das terras. Ainda assim a comunidade tem uma pequena plantação de feijão, mandioca e milho que ajuda na subsistência das 50 famílias, mas a base da alimentação são as cestas do Governo Federal, que eram distribuídas a cada 15 dias, mas estão sendo entregues em média a cada seis semanas.

Outro problema denunciado pela comunidade é que os peixes e a água do rio Jaguí, que passa pelo acampamento, estão contaminados. “Uma vez por semana os fazendeiros passam agrotóxico na plantação de soja e o avião despeja o veneno aqui em cima de nós também. Os cachorros morrem e as crianças e velhos passam mal, têm vômito, febre e dor de cabeça”, explica Inocêncio Pereira, outo líder do local. A situação piora com a falta de alimentos, que deixa as crianças desnutridas e os velhos enfraquecidos, sucetíveis à tuberculose. No acampamento, sete pessoas estão com a doença.

Da terra tradicional para os “chiqueiros”

Ao falar sobre as cestas básicas, a liderança lembra que tudo seria diferente se o governo demarcasse a terra que eles reivindicam, que abrange as fazendas Madama, Maria Auxiliadora, Mangueira Preta e Fazenda de Ouro, totalizando cerca de 18 mil hectares. Ismarth lamenta a época em que as famílias foram obrigadas a morar nas aldeias criadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1920, que os anciãos chamam de “chiqueiros”. “Meu pai, Bernabé, não foi para o ‘chiqueiro’ e ficou trabalhando na fazenda. Antes ele era o dono da terra e virou peão do fazendeiro”, lembra.

Em 2007 e 2008 a comunidade fez as primeiras tentativas frustradas de retomada da terra tradicional, cujas consequências Arturio Benites e Noé Lopes sentem na pele até hoje. Ambos têm no corpo balas de arma de fogo, que os atingiram durante o confronto. Desde então, quatro lideranças foram assassinadas. A primeira foi a rezadeira Xurete Lopez, baleada em um confronto em 2007. Em junho do mesmo ano, o líder Ortiz Lopez foi assassinado por pistoleiro em seu barraco na frente da mulher e filhas.

Para Ismarth, a demarcação das terras poderia mudar a situação de extrema miséria da comunidade. “Com a devolução da nossa terra, nós vamos ter o que precisamos para viver bem. Nós temos que ter projeto de vida para cada família, ter a lavoura, poder criar os animais, fazer as práticas culturais e dar incentivo para os jovens, porque eles precisam”.

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