Ainda é início de ano. O carnaval acabou, todo mundo pulou, bebeu, festou, e agora é hora de contabilizar os dias de folia e se organizar para ir até o fim do ano sem problemas financeiro. Já passou janeiro e com isso ficou para trás matrícula, uniforme, material escolar, IPVA, IPTU...Agora é a hora de começar a equilibrar para não desesperar depois.
Para isso, o economista Áureo Torres, dá dicas de como poupar, como equilibrar as contas, se estas já estão no vermelho, e claro, ensinar as crianças a lidar com dinheiro e não terem problemas financeiros futuros.
Áureo Torres, se a pessoa está devendo cartão de crédito, cheque especial, o que deve fazer para resolver o problema?
Se a pessoa já está numa situação crítica financeiramente, está endividada com cartão de crédito, ou com cheque especial ou com os dois, ela deve procurar os credores e fazer uma renegociação. Se a dívida for nos bancos, deve procurar as agências e tentar um crédito pessoal. Já que esta modalidade de crédito tem juros bem menor. O cartão de crédito, por exemplo, varia o juro de 11% a 13% ao mês. O cheque especial também, mais ou menos isso. E o crédito pessoal não é nem 4% ao mês. Aí, ele pega o crédito pessoal e quita tudo, mas não pode cair de novo.
Analisando o mercado, o brasileiro costuma se endividar muito?
O que acontece, às vezes, é que a pessoa é descontrolada e fica nesse ciclo. Paga e se endivida. Ela até tem uma intenção boa, vai renegocia, ai volta a cair de novo no cartão de crédito. Isso ai é mortal. Se a pessoa usar o crédito pessoal, ela vai ter que se manter com o seu salário, sem endividamento no cartão de crédito. Ela pode usar o cartão, mas tem que pagar 100% da fatura.
As mudanças impostas pelo governo em relação aos cartões de crédito foram boas?
As mudanças vieram para sanar o mercado. Antes, nós tínhamos como regra o mínimo [pagamento mínimo exigido da fatura] de 10%, e as pessoas estavam extrapolando, pela facilidade de crédito. A mudança veio para organizar o mercado. Para garantir às empresas de cartão de crédito um saneamento.
Imagina: você tem uma quantidade enorme de clientes, e todos endividados. Isso faz com que essas empresas fiquem vulneráveis, e a economia como um todo, vai ficando vulnerável. Então, as mudanças vieram para forçar os endividados a pagar pelo menos 20% do cartão. Desta maneira, vai saneando o mercado.
O excesso de crédito nos últimos anos, principalmente na classe C, foi responsável para que houvesse essas mudanças no setor?
Não é que a classe C teve acesso ao crédito agora. É que há uma substituição do cheque para o cartão de crédito. O cartão é bom, ele tem milhas, tem vantagens, mas você tem que saber usar. Como tem também que saber usar o cheque. Houve anos que o cheque amedrontava os consumidores. O crédito dá uma impressão, para algumas pessoas, que ela tem aquele dinheiro. Mas, ela não tem. No fim do mês vem a conta para pagar. Tem que gastar com responsabilidade, tanto um quanto outro.
Então, essa expansão é boa para a economia?
A expansão é boa para a economia, mas as pessoas têm que saber usar o serviço que está sendo oferecido. É muito bom você ter um cartão. Principalmente pelo crédito que é parcelado. Você não tem que entrar em fila de crediário, você chega e consegue comprar um eletrodoméstico em 10 vezes iguais com o mesmo valor à vista, por exemplo. Na verdade quem paga à vista, em dinheiro, merecia um desconto.
E quem está com IPVA, IPTU atrasado. O que deve fazer?
IPVA tem o risco do carro ser apreendido. Ele tem que, pelo menos, se possível pagar o parcelamento. Caso ele não consiga pagar a dívida principal, paga uma parcela, paga outra. Porque se o carro for apreendido tem despesa de guincho, de diária. Não é um juro, mas é uma despesa oculta. E poder ter agravantes. Se de repente a pessoa está viajando, tem despesa de hotel, os custos são enormes.
E poupança, se a pessoa tem uma poupança e está devendo o melhor é sacar o dinheiro e quitar a dívida?
Por incrível que pareça, tem pessoa que tem poupança e tem dívida no cartão de crédito, no cheque especial e na poupança não mexe. O juro de um mês do cartão de crédito é mais que os juros de um ano da poupança. Tem gente que fala: não, eu não mexo na poupança. Mexe sim, depois repõe. O melhor é tirar da poupança, quitar o que deve e depois repor. Mas, tem que devolver o que sacou para a poupança.
E se as contas estão equilibradas, como começar a poupar?
Às vezes, a pessoa termina o mês com zero. Aí ela diz, eu não sei o que eu fiz com o dinheiro? Então ela tem que saber onde está indo o dinheiro. Tem que fazer uma planilha e saber onde precisa cortar mais. Ai você vê lá: transportes [abastecimentos], lazer [restaurante, cinema]... Aí você vai ver, olha estou gastando muito aqui, ou ali. Vai identificar onde está gastando, onde precisa cortar. Tem que abrir mão agora para uma coisa melhor no futuro. Isso é poupança, abrir mão de gastar hoje, para consumir mais amanhã.
Quem economizar 8% do salário todo mês, por exemplo, tem o 14° salário. É uma viagem com a família, o pagamento à vista dos impostos de início do ano. É muito importante poupar.
Qual investimento seria melhor para quem tem pouco dinheiro para aplicar?
Médio e curto prazo, o melhor investimento é poupança. Mas pra quem pode esperar mais o melhor investimento seria compra de títulos do governo – que é o Tesouro Direto. Ele não tem risco.
Como educar as crianças para que saibam lidar com o dinheiro desde cedo?
Começa com uma pequena mesada e ensina que não pode gastar tudo. Que tem que economizar para comprar algo melhor. E ser firme, se gastar tudo não dar mais dinheiro. Pode incentivar também, tipo: sugere para a criança comprar uma bicicleta e diz, você junta a metade e eu dou a metade. Ai ela vai ter um objetivo para guardar o dinheiro. Ai é que está a educação financeira, é você quebrar a natureza do ser humano, fazer aprender a guardar. O ser humano, em geral, é imediatista.
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