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'Turismofobia' avança em cidades europeias após ataques terroristas

“Turistas, voltem para casa”

Ataques terroristas como o ocorrido em Barcelona, na Espanha, na última quinta-feira (17), quando uma van branca invadiu Las Ramblas, deixando 13 mortos e mais de 130 feridos, costumam afugentar os turistas. O atentado no famoso calçãdão da cidade catalã aconteceu no auge do verão europeu, quando o continente, em especial os balneários mediterrâneos, estão apinhados de visitantes estrangeiros. 

Antes mesmo do último ataque terrorista, porém, Barcelona já vinha se tornando cada vez mais hostil aos turistas. Trata-se de um fenômeno que tem sido chamado de “turismofobia”, uma aversão aos viajantes, eleitos como os culpados por muitos dos problemas da cidade. A onda turismofóbica avança também sobre outros destinos europeus, como Veneza, na Itália.

Nos últimos meses, muros barceloneses apareceram pichados com inscrições como “Todos os turistas são desgraçados” e “Turistas, voltem para casa” – escritas sempre em inglês para que não restem dúvidas sobre quem são os alvos dos protestos. Neste ano, sete hotéis em Barcelona foram atacados por grupos antituristas que quebraram vidraças e assustaram os visitantes. Na última semana, houve manifestações do movimento “La Barceloneta Diu Prou” (Barceloneta diz basta, na tradução do catalão) no tradicional bairro popular da cidade, que vem sendo invadido por legiões crescentes de turistas nos últimos anos. Pesquisa realizada pela prefeitura de Barcelona em junho mostrou que, para os habitantes da cidade, o turismo se transformou no pior problema da cidade, à frente do desemprego. Os movimentos antiturismo crescem em outras cidades espanholas, como Madri, e balneários como Ibiza e Palma, no Mar Mediterrâneo. 

No início do mês, após um ataque a um hotel barcelonês, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, disse que os movimentos que se opõem aos visitantes estrangeiros são “um disparate” e “não fazem sentido”. “Nunca pensei que tivesse de defender o setor turístico espanhol. É algo verdadeiramente inédito”, disse. O turismo é a principal atividade econômica do país: representa 11% do Produto Interno Bruto (PIB) e emprega 2,5 milhões de pessoas, o equivalente a 13% do mercado de trabalho. No primeiro semestre, a Espanha recebeu 36,6 milhões de turistas, um aumento de 11% em relação a 2016. A Catalunha, região da Espanha onde se localiza Barcelona, foi destino escolhido por 23% dos turistas.

Las Ramblas, o calçadão onde ocorreu o atentado terrorista, é um dos locais mais visitados da cidade. Num dia útil, o passeio recebe 287 mil pessoas. Nos fins de semana ou feriados, são 350 mil. Estima-se, porém, que apenas mil pessoas dessa multidão de transeuntes sejam moradores.

O sentimento de que a cidade foi sequestrada pelos estrangeiros e serve apenas a eles é um dos combustíveis da intolerância com turistas. Há, ainda, fatores econômicos: o fluxo caudaloso de turistas eleva os preços dos serviços e dos aluguéis – e são os moradores que acabam pagando essa conta, mesmo depois do fim da temporada. Em Barcelona, alugar um apartamento para um turista pode ser quatro vezes mais rentável do que assinar contrato com um inquilino que reside na cidade. “O modelo de turismo atual expulsa os moradores de seus bairros e prejudica o meio ambiente”, disse, à “BBC”, um militante do Arran Països Catalans, grupo separatista catalão que organizou ataques a hotéis em Barcelona.

Em julho, mais de duas mil pessoas marcharam em Veneza contra os turistas. Os manifestantes reclamavam da inflação do aluguel e do impacto ambiental causado pelos navios cruzeiros que aportam na cidade. “Eu não vou embora!”, gritavam. Veneza recebe mais de 20 milhões de habitantes por ano, mas apenas 55 mil pessoas moram lá – número que vem diminuindo nas últimas décadas. Estima-se que mil venezianos deixem a cidade a cada ano, expulsos pelos aluguéis cada vez mais caros. Se o população continuar a cair, é provável que Veneza não consiga mais suportar o volume de turistas a que está acostumada.

Em Dubrovnik, no litoral da Croácia, o prefeito mandou instalar câmeras para monitorar quantas pessoas chegam à ilha em navios cruzeiros. O objetivo é impedir a entrada de mais gente do que a cidade é capaz de comportar. Em Hvar, ilha croata que despontou como um dos destinos favoritos dos britânicos, as autoridades querem multar em até € 700 turistas que exagerarem na bebida e se comportarem de modo indecente ou grosseiro em público. As reclamações da falta de educação e civilidade dos visitantes estrangeiros são constantes em todos os lugares onde cresce a turismofobia.

A Organização Mundial de Turismo (OMT), órgão das Nações Unidas (ONU), demonstrou preocupação com a crescente intolerância com turistas e pediu que os governos trabalhem para que o setor se desenvolva de modo sustentável. “Assegurar que o turismo seja uma experiência enriquecedora, tanto para visitantes quanto para moradores, exige políticas e práticas de turismo sustentáveis e o engajamento de governos e administrações locais, empresas privadas, comunidades e dos próprios turistas”, disse Taleb Rifai, secretário-geral da OMT ao jornal britânico “The Guardian”. Rifai afirmou, ainda, que o turismo pode ser um aliado na conservação e preservação de comunidades.

Embora haja problemas sociais e ambientais sérios causados pelo turismo irresponsável, a intolerância não é solução. A queda do número de visitantes pode prejudicar a economia de países como a Espanha e a Itália e causar ainda mais problemas a suas populações, como o desemprego. A turismofobia não contribui para melhorar em nada a situação – pode, aliás, piorar ainda mais as coisas.

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