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Com quase 9 mil textos, Jurandir é motorista que sonha com reconhecimento

Motorista afirma que vai tentar registrar façanha no Guinness Book

  • Jurandir tem 48 anos e além de motorista da linha 070, também é escritor nas horas vagas (Arquivo pessoal)
  • Seu 'tesouro' é um baú de madeira onde guarda suas quase 9 mil composições (Arquivo pessoal)

Jurandir Arce, de 48 anos, há mais de 12 ganha a vida transportando gente pelas vias de Campo Grande. Há 28 anos na mesma empresa, ele começou a carreira com cobrador, até tornar-se o motorista gente boa e figura conhecida na linha 070. Porém, por trás da figura robusta, quem diria que Jurandir é, na verdade, um homem dedicado às letras?

E um sonhador, diga-se de passagem. Pelo menos é o que se constata nas redes sociais, nas quais dezenas de publicações retratam o motorista divulgando seus textos, que chama de obras de arte sem o menor constrangimento.

Mesmo sem muita eloquência e usando palavras simples para expressar-se, Jurandir apresenta os escritos aos internautas e oferece a venda dos direitos autorais a quem quiser transformar as letras em música. Ele refuta, no entanto, o status de poeta: para Jurandir, o correto é se apresentar como escritor-frasista' ou 'escritor-compositor'.

"Não faço poema e nem poesia. Meus textos são 'letra pra música' ou 'matéria pra livro'. Tenho mais de 8 mil composições. São 8.818, depois que atualizei o número", conta. Ele guarda todos os seus escritos, alguns surgidos durante sua adolescência, em um baú repleto de cadernos, seu tesouro particular.

Guiness Book

Quando não conduz ônibus pela cidade, Jurandir dedica-se às letras (Arquivo pessoal)

Em seu tempo livre, Jurandir gosta de sentar à mesa e abrir seus cadernos. Com caneta nos dedos, ele preenche página por página com seus textos e defende o valor de suas palavras. Tem até um sonho: 'entrar' no Guinness Book, o livro dos recordes, como o homem com mais composições em língua portuguesa até o momento. Segundo ele, seus quase 9 mil textos garantiriam-lhe a façanha.

"Minhas palavras são bem simples. Criei o hábito de escrever com 13 para 14 anos... Comecei a escrever nesse estilo, com palavras mais românticas, e nunca mais parei. Até tentei parar, porque queria cursar uma faculdade, mas o tempo livre que eu tenho é o tempo que eu fico escrevendo e compondo, não tem jeito", revela Jurandir.

Jurandir defende que seus escritos só precisam da melodia para se tornarem músicas de sucesso. Após conversar com diversos compositores profissionais, ele teria chegado a um modelo no qual as frases precisariam - segundo aponta - de poucos ajustes para virarem músicas de sucesso.

"Tem letra que escrevo em estilo americano, que é a balada, o romântico. São muitas coisas que me inspiram. Tenho vários estilos e várias influências. Quando estou com a ideia na cabeça, começo a escrever e a composição sai", revela. "Também tento não escrever letra muito melancólica, porque hoje em dia tem muitas pessoas em drepressão. Então são coisas mais alegres", pontua.

Tentativas

Jurandir se considerar escritor-compositor ou escrito-letrista (Arquivo pessoal)

As façanhas de Jurandir como escritor, no entanto, esbarram em alguns obstáculos típicos dos sonhadores. Mesmo sem tocar instrumentos, ele garante que suas letras encaixariam em melodias. Porém, ao romantizar as próprias palavras, acaba provavelmente por alimentar uma visão ingênua do mercado fonográfico.

O motorista-escritor da linha 070 afirma que já entrou em contato com vários artistas, de Zezé Di Camargo a Mamonas Assassinas. Segundo ele, no entanto, a necessidade de se deslocar até a cidade dos artistas o impediu de seguir à frente com o projeto. "Mandei proposta pros Mamonas Assassinas, mas precisava ir até ele e não fui. Depois aconteceu aquela tragédia lá... Com o Zezé Di Camargo foi a mesma coisa, infelizmente não consegui ir até lá", afirma.

Ele também confirma o contato com a equipe do Guiness, que lhe teria orientado que era preciso comprovar as produções. "Tem que registrar, patentear... Mas eu tenho tudo aqui... 8.818 composições. Meu sonho, minha meta, é participar do Guiness, porque assim eu iria conseguir divulgar meu trabalho. Eu também poderia expor meu trabalho como obra-prima depois que tiver reconhecimento dentro do mercado", conclui.

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