MS 40 anos: "Só falo de Aquário depois que entregar o Hospital do Trauma", diz Reinaldo

Por Éser Cáceres, com imagens de Chico Ribeiro

Quando Mato Grosso do Sul foi criado, em outubro de 1977, Reinaldo era um dos alunos do Colégio Dom Bosco que foram para as ruas de Campo Grande comemorar a divisão de Mato Grosso. Agora, 40 anos depois, ele é o governador do Estado que foi criado com a promessa de se tornar o ‘celeiro do Brasil’.

O Jornal Midiamax conversou com Reinaldo Azambuja sobre os desafios e expectativas para os sul-mato-grossenses quatro décadas depois:

Midiamax - Governador, onde o senhor estava em 11 de outubro de 1977? Se lembra da divisão de MT e criação de Mato Grosso do Sul?

Reinaldo - O que posso dizer da divisão é que acompanhei como jovem, na época com 14 anos, toda a luta desses que se esforçaram para que isso ocorresse. Eu estudava no Dom Bosco, na sétima série, quando houve a divisão, e lembro que nós todos fomos para a rua. Fecharam a 14 de Julho, e celebramos a conquista que foi a criação de Mato Grosso do Sul. Foi uma vitória para todos, porque administrar o Mato Grosso com aquele tamanho continental era inviável, e aqui ficamos com um estado cheio de riquezas, muito bem localizado, com tudo para melhorar e dar certo.

Midiamax - O senhor acha que esta promessa de ‘melhora’, que inclusive norteou o discurso divisionista, se concretizou? O que se dizia na época era que MS seria criado para se tornar o ‘celeiro do Brasil’...

Reinaldo - Eu acho que sim. Nós já não somos mais aquele estado no binômio soja e boi. Nós temos agora um perfil de agroindustrialização. Não é à toa que temos o terceiro crescimento de PIB (Produto Interno Bruto) do país, cinco vezes acima do crescimento do PIB nacional, somos o quinto estado no ranking de competividade, e isso é um ganho enorme. Somos o segundo estado em investimentos de infraestrutura dos 27 estados… Então, nestes 40 anos, foi moldado um estado que cresceu, desenvolveu, criou alternativas. Com erros e acertos,  chegamos até aqui como um dos maiores produtores de alimentos do país. Avançamos na agregação de valor da produção e a industrialização regional já é uma realidade. Não somos mais apenas o grande produtor de grãos e da melhor carne do Brasil.  Novas fronteiras foram abertas e já podemos dizer que somos também o maior polo de celulose do país, um dos maiores produtores de proteína animal. E  agora avançamos em genética, mineração,  e serviços…

Midiamax - Mas o senhor citou índices relevantes primordialmente para o setor produtivo, e apesar do PIB alto, temos ainda muita concentração de renda. O senhor acha que esses avanços que marcaram nossa história em quatro décadas também melhoraram a qualidade de vida da população?

Reinaldo - Ah, sim. A população ganhou com isso, porque somos o segundo ainda em geração positiva de empregos, mesmo nesta crise terrível. O que eu tenho é que valeu a pena. Acho que o estado cresceu, desenvolveu, criou as condições de um estado moderno, pujante, que tem para a frente um horizonte muito positivo para continuar como um dos melhores estados do país, pronto para enfrentar os desafios. E a história  é um processo de construção coletiva. Somos hoje fruto do trabalho duro e determinado de diferentes gerações de sul–mato-grossenses, de brasileiros de diferentes estados, de culturas como a japonesa, a árabe, a paraguaia e a boliviana , entre tantas outras, que deram uma contribuição fundamental ao nosso estado.  Nesse tempo, crescemos, multiplicamos as oportunidades e também melhoramos a qualidade de vida da nossa gente. Nós temos uma população que ama onde mora por isso. Mas, é É claro que ainda temos muitos desafios.

Midiamax - E quais são esses desafios?

Reinaldo - São muitos e extremamente complexos. Em 2014, quando atendi o chamado para ser candidato ao governo, apresentamos um programa extremamente ousado, mas que não contava com uma crise financeira nacional desse tamanho. A pior recessão dos últimos 100 anos. As pessoas não têm noção do que é você trabalhar com algo em torno de 40% a menos de arrecadação, em alguns momentos. É como se tirassem, todo mês, quase a metade do seu salário. Mas as contas continuam as mesmas... Por isso, inclusive, muitos estados quebraram no meio do caminho. Estão aí com a folha atrasada, parcelando décimo-terceiro e acabando com serviços públicos essenciais. Nós aguentamos o tranco. Cortamos na própria carne. E somos hoje o estado, ao lado de Goiás, com o menor número de secretarias do país. Acabamos com centenas de cargos de confiança, renegociamos o custo de contratos, o valor de incentivos… Agora, criamos o fundo de estabilização e o Refis. Estamos fazendo o possível e o impossível para não atrasar salários ou paralisar serviços. E tem dado certo.

Midiamax - O senhor listou resultados no funcionamento do Estado como máquina administrativa. Mas, e no atendimento à população? É claro que o esforço para assegurar o salário do funcionalismo é importante, mas para a população que precisa de serviços básicos como saúde, por exemplo…

Reinaldo - É verdade. Na saúde, quanto mais se faz, mais tem para fazer. É assim. E talvez seja assim porque é uma área que ficou abandonada durante muito, muito tempo nestes 40 anos. Quem não se lembra dos ônibus e das filas da vergonha? Não tinha jeito. O cidadão tinha que viajar centenas de quilômetros para fazer um exame, um atendimento especializado, uma cirurgia... Não tinha quase nada no interior.  Isso justificou fazer as caravanas da saúde. E o resultado foi simplesmente impressionante. Atendemos cerca de 500 mil pessoas que estavam na fila, por anos a fio, esperando uma resposta do estado…

​Midiamax - Mesmo com meio milhão de pacientes atendidos, as Caravanas da Saúde recebem críticas por conta do valor, que poderia ser investido na construção de hospitais, por exemplo…

Reinaldo - Mas não dava para esperar a construção de hospitais! Fizemos as Caravanas num cenário de calamidade, e esse quadro já  começou a mudar. Agora, tem hospital em Corumbá. Em Coxim. Em Ponta Porã. Estamos construindo o de Três Lagoas e vamos começar o de Dourados. Em Campo Grande, vamos entregar, até o fim do ano, o Hospital do Trauma, depois de absurdos 20 anos de espera. 20 anos! Então são mudanças estruturais, que não podem ser feitas do dia para a noite! Ainda temos problemas? Claro que temos. E complicados, porque não temos recursos suficientes para fazer tudo. O importante, no entanto, é que temos rumo, projeto, planejamento, responsabilidade, coisas que há muito tempo esse estado não tinha. Eu vou me sentir realizado se não for mais preciso fazer as Caravanas da Saúde em nosso estado.

Midiamax - Além da saúde, a falta de segurança pública já é hoje uma preocupação para quem vive em Mato Grosso do Sul. Crimes mais violentos que antes eram raros estão se tornando comuns e o narcotráfico espalha medo na fronteira. O senhor acha que o Governo poderia fazer mais no combate à criminalidade?

Reinaldo - Esta realmente é uma das questões mais preocupantes para o estado no momento em que chegamos aos 40 anos. Nós temos dados urgência a este tema, sem fugir das responsabilidades. E mesmo em época de crise, diminuímos muitas facetas da criminalidade e saltamos 9 posições no ranking da segurança pública. Reduzimos o número de roubos e furtos, e temos dado respostas imediatas aos crimes mais violentos, através das nossas polícias atuantes. Mas, com relação aos efeitos do tráfico de drogas, realmente nós assumimos aqui papel que é da União. Eu já levei essa situação diretamente ao presidente Michel Temer, e recomendei a ele para fecharmos a fronteira. Porque nós não somos produtores de drogas, mas somos vizinhos de produtores e distribuidores. Então, o que acontece? A fronteira está escancarada.

Midiamax - O senhor está admitindo que podemos considerar a fronteira de MS como ‘terra de ninguém’?

Reinaldo - Veja bem, atualmente quem tem presença na nossa fronteira é só o DOF (Departamento de Operações de Fronteira). O DOF é o maior responsável pelas apreensões, e nós estamos alí na fronteira praticamente sozinhos. Quem aguenta o tranco é o DOF e a PRE (Polícia Rodoviária Estadual), porque você vê a completa ausência das forças federais nas fronteiras do Brasil. A união precisa assumir suas responsabilidades, e não está fazendo. Abandonou as fronteiras. Se você ver, os postos da Polícia Rodoviária estão fechando, não têm nem combustível. E baixíssimo efetivo, tanto da PRF (Polícia Rodoviária Federal) quanto da Polícia Federal. E o Exército também, fica distante desta discussão, porque não quer entrar nesta discussão do tráfico… Então, acaba acarretando ao Estado, praticamente sozinho, enfrentar essas facções. E essa guerra nós não vamos vencer sozinhos.

Midiamax - O senhor acha que faltou visão aos administradores para controlar as fronteiras antes de chegar à situação atual?

Reinaldo - O que eu posso dizer é que estamos trabalhando para resolver déficits históricos do estado. Veja que, quando assumimos o governo, o estado contava só com a metade do contingente necessário para as forças de segurança. Apenas nesses três anos, melhoramos o contingente. São mais de 2 mil novos profissionais de segurança e promovemos mais de 7 mil servidores. Mais de 600  viaturas e cerca de 6 mil novos equipamentos de segurança e armamentos. Mas a situação não era apenas em segurança. Na educação, tínhamos o pior IDEB do centro-oeste e vínhamos perdendo posições. Agora, reagimos e estamos melhorando. Mesmo com toda dificuldade estamos pagando um dos melhores salários de professor do Brasil. Agora, estamos investindo as escolas de tempo integral e o nosso objetivo  é ter a melhor educação da região.

Midiamax - Falando em salários, recentemente o governo recebeu críticas durante a negociação de reajuste com os servidores e o principal argumento era a falta de recursos, mas o senhor está falando de investimentos… É uma questão de prioridades?

Reinaldo - Enxugamos os gastos com a máquina administrativa e por isso o estado não sucumbiu à crise como outros, que estão até com salários atrasados. E estamos planejando investimentos, porque esse é um dinheiro específico, carimbado, do Fundersul. Não pode por exemplo, ser utilizado para dar aumento de salário ao servidor. É proibido por lei. São recursos que só podem ser investidos especificamente em infraestrutura. E as pessoas muitas vezes não entendem isso. Vamos fazer de agora até o fim do nosso governo cerca de 2 bilhões de reais de investimentos em obras, em todos, literalmente todos os 79 municípios do estado. Aliás, isso já está acontecendo.

Midiamax - Quando assumiu o governo, o senhor criticou as obras inacabadas que recebeu e até lançou um programa. Mas até agora o Aquário do Pantanal continua parado. O senhor vai terminar?

Reinaldo - Olha, o Aquário é uma obra do governo anterior cheia de problemas e que está sendo questionada na justiça. Além tem erros básicos de planejamento, porque, um empreendimento que começou custando 86 milhões de reais, já gastou cerca de R$ 100 milhões e ainda precisa de algo em torno de R$ 40 milhões para terminar…

Midiamax - Mas o senhor acha que o valor se multiplicou apenas porque houve ‘erro de planejamento’? O Aquário do Pantanal é alvo de investigação e ação na Justiça por suposto desvio de dinheiro público. O senhor acha mesmo que houve apenas ‘erro de planejamento’?

Reinaldo - Olha… (Risos) Eu não quero culpar ninguém enquanto os órgãos de controle estão investigando. O que eu posso dizer é que eu, como governador, jamais teria investido numa obra dessas com outras prioridades como saúde e segurança precisando de recursos. Acho até que temos que terminar, senão é desperdício de dinheiro público. Mas eu tenho outras prioridades. Eu decidi que não falo do Aquário enquanto não entregar o Hospital do Trauma. É uma simples questão de prioridade.  E claro, temos que esperar as decisões da Justiça sobre as denúncias que envolvem essa obra.

Midiamax - Por falar em denúncias, como o senhor acompanha o caso da Delação da JBS, que citou seu nome?

Reinaldo - Com absoluta serenidade. Porque quem não deve, não teme.  A questão é que vivemos hoje no Brasil a República dos Delatores. O sujeito dá uma de esperto: às vésperas de ser apanhado, vai lá e delata  tentando fugir previamente das penalidades da lei. Acusa e não prova nada. E ai depois se enrola, mente tanto que de delator e paladino da ética acaba na cadeia, porque não consegue provar o que acusou, mas ao mesmo tempo admitiu os ilícitos graves cometidos. Então, da minha parte, estou muito tranquilo.

Midiamax - Mas em muitos casos, as delações têm se mostrado eficientes para trazer à tona diversos esquemas de corrupção que envolvem políticos de diversos grupos. O senhor não acha temerário generalizar?

Reinaldo - Temos que separar os casos. Mas existe uma criminalização generalizada por parte de todos contra a classe política. É claro que há, como em todas as profissões, políticos bons e maus. Mas esse denuncismo misturou todo mundo no mesmo saco. E isso, além de injusto, é ruim. Denunciados já viram culpados. No caso aqui, por exemplo, a JBS tinha como estratégia nas eleições doar para todos os lados. Eles doaram para o PSDB e, do meu partido, veio para mim. Tudo legalmente declarado na prestação de contas. Mas, na delação, isso já virou propina. Só que não é. Está tudo declarado e vou provar. E a delação desse pessoal da JBS tem questões antagônicas. Disseram que havia um acordo para eu pagar dívidas de campanha do Delcídio, e tenho de concordar com ele, que seria mais fácil o Sargento Garcia prender o Zorro.

Midiamax - Mas, além da JBS, houve denúncias envolvendo o fisco estadual no caso do curtume, né?

Reinaldo - Este caso, então, é pior. Outro exemplo de como estão usando o denuncismo no Brasil. Esse povo que denunciou, eles são fraudadores do fisco. Eu estou falando isso desde o começo. Eles usavam notas frias para ganhar crédito tributário. E quando resolvemos suspender os incentivos por isso, vieram com essa denúncia. É uma situação que já está na Justiça, e já revertemos no TJMS para suspender o regime especial. Quando assumimos, nós estudamos esses incentivos que eram desiguais para empresários do mesmo setor e enquadramos eles. Daí, fizeram um barulho danado e recentemente os desembargadores do Tribunal de Justiça, em sua maioria, nos deram razão, confirmando uma série de ilícitos que eles cometeram. Tenho confiança na justiça e fé de que tudo isso vai ser esclarecido imediatamente.

Midiamax - E no caso da JBS?

Reinaldo - Veja bem: o nosso governo revisou os incentivos concedidos pelo governo passado ao grupo JBS. Quando assumi, eles pagavam por ano cerca de R$ 40 milhões de impostos. Com a revisão que fizemos, este ano devem pagar mais de R$ 100 milhões. Então, veja que ironia, que contradição, essa seria a primeira propina que alguém paga para passar a pagar mais impostos ao estado. Isso tem algum cabimento?! Não tem, mas acaba sendo usado politicamente.

Midiamax - Por falar em política, o senhor é candidato à reeleição?

Reinaldo - Olha, não tem cabimento, a esta altura, com o quadro atual de tanta dificuldade, ficar falando de eleição. Eleição é só o ano que vem. Minha agenda aqui é outra. Tem um monte de obras em andamento para entregar em todos os municípios. E vamos enfrentar aqui, assim como os outros estados, reformas importantes para o futuro, como a da previdência, que tem que ter solução  porque vai estourar... e prejudicar todo mundo. Temos que continuar buscando recursos e soluções pra nossa prioridade, que é a saúde. E estou convencido que não tem outro caminho senão o da regionalização. Regionalização que, como já disse, está em curso, acontecendo. Vamos fazer, uma grande reforma do ensino médio a partir do ano que vem,  e expandir ainda mais as escolas em tempo integral, pra aqueles alunos que mais precisam. Temos que continuar atraindo novos investimentos privados pra fazer o estado crescer, gerar mais emprego e renda e impulsionar o desenvolvimento regional. Ou seja, tem muita coisa pra fazer, antes de pensar em política.

Midiamax - Mas essas realizações não têm reflexo eleitoral? Em Campo Grande, por exemplo, o senhor tem até um programa de obras em conjunto com a Prefeitura. Isso não tem a ver com a proximidade do período eleitoral de 2018?

Reinaldo - Tem a ver com a postura dos administradores. Com o ex-prefeito de Campo Grande não se dialogava. Houve caso até de dinheiro parado por dois anos, porque não tinha sintonia. Agora, com o Marquinhos, embora eleito em palanques opostos, trabalhamos em sintonia por Campo Grande. Já temos R$ 180 milhões para retomada de obras de asfalto, resolvemos o problemas de diagnósticos por imagem da rede municipal de saúde, que unificamos com o Estado, e tem sido assi nos 79 municípios. Em cada um temos obras e parcerias. Não podemos partidarizar o Governo. Então, não é uma questão eleitoral.

Midiamax - O senhor diria que, com esta aproximação, continua em ‘palanques opostos’ com o prefeito de Campo Grande?

Reinaldo - Atualmente nossos palanques não são mais opostos. Há proximidade porque existe diálogo e confiança entre as equipes. Os técnicos dele sentam com os do Governo e buscam soluções em conjunto. Então, isso acontece porque os dois lados estenderam as mãos. E quem ganha é a população.

Midiamax - Listamos muitos problemas e desafios. Mas, de modo geral, como governador de MS aos 40 anos do Estado, o senhor acha que as expectativas para os sul-mato-grossenses são boas para as próximas 4 décadas?

Reinaldo - Não tenho dúvidas. Nós temos uma posição privilegiada, recursos naturais relevantes, um povo trabalhador. E nossa estrutura administrativa, depois dos ajustes que conseguimos fazer, muitas vezes cortando na própria carne, é extremamente competitiva. Neste momento, a hora exige responsabilidade. Não dá pra fazer demagogia, populismo, dar um passo maior que as pernas e colocar em risco a governabilidade. Estamos fazendo o que é preciso fazer agora. E preparando o futuro, os próximos quarenta anos. Não tenho dúvida de que, resolvendo esses desafios da segurança, da saúde e investindo na educação, seremos o melhor estado do Brasil para se viver. Que eles sejam de paz e prosperidade para todo mundo. Eu amo Mato Grosso do Sul e tenho orgulho da responsabilidade que assumi.

 

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