Para pesquisador, benefícios socioambientais precisam ser considerados na hora de atrair investimentos agropecuários em MS

Por Guilherme Cavalcante

Em 2015, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Mato Grosso do Sul foi o 4º colocado em produção de Bovinos do país. De 2000 a 2015, a produção de madeira de eucalipto teve aumento de 2.400%, colocando o Estado na terceira colocação na produção de celulose no país. No mesmo período, o setor sucroalcoleiro atingiu a 5ª colocação nacional com um aumento de 800% na produção total de cana-de-açúcar. Junto a esses números, também se observa o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) dos municípios, bem como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Ou seja, nas localidades nas quais houve investimentos no setor agropecuário, a qualidade de vida das pessoas também aumentou. Estes dados estão sistematizados e interpretados na tese de doutorado do pesquisador Alexander Bruno Pegorare, engenheiro agrônomo com titulação de Doutor em Sustentabilidade Agropecuária pela UCDB 9Universidade Católica Dom Bosco). Supervisor das Pesquisas Agropecuárias Nacionais oficiais realizadas pelo IBGE no estado de Mato Grosso do Sul, Pegorare concedeu entrevista ao Jornal Midiamax, na qual destacou alguns pontos de sua pesquisa. Confira.

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JORNAL MIDIAMAX - Sua pesquisa avalia a relação entre a produção agropecuária e os indicadores socioeconômicos em MS, além de apontar a necessidade de mapeamento dos indicadores para identificar as dificuldades decorrentes da atividade agropecuária e florestal em MS. Qual finalidade desta pesquisa?

ALEXANDER BRUNO PEGORARE - Como trabalho em um instituto de pesquisa, percebo que a utilização dos indicadores não tem sido explorada em toda sua potencialidade por parte de formuladores e gestores de programas públicos e, muitas vezes, existe o viés político de forma a esconder problemas regionais, e outras vezes se utilizam indicadores de forma isolada sem relacionar com outros indicadores para retratar determinado cenário. Para isso, estudos aplicados na mensuração da influência, ou do impacto, de um setor econômico na realidade local são fundamentais para discorrer sobre sua importância no desenvolvimento regional e na qualidade de vida das pessoas.

O senhor poderia citar um exemplo prático de aplicação de sua pesquisa que poderia ser utilizado pela gestão pública nos municípios de Mato Grosso do Sul?

Pois é, outro dia atrás conversando com um secretário de um município no sul do Estado, o mesmo me informou que estavam com um terreno para fomentar um parque industrial da cidade e naquele momento havia um frigorifico e uma usina de cana de açúcar interessadas no mesmo terreno, e estavam em duvida sobre qual das plantas seria o mais atraente para o desenvolvimento da região. Assim, uma aplicação possível seria, primeiramente, verificar as deficiências locais, não somente econômicas, mas as necessidades sociais e ambientais, e conhecer sua realidade e seus potenciais para o agronegócio, irão auxiliar na tomada de decisão para a ação pública, bem como critério de alocação do gasto público para melhorar a qualidade da população envolvida.

Qual é o panorama do agronegócio de MS na atualidade?

Para ser ter uma ideia da participação produtiva do Estado no cenário nacional, em 2015, segundo dados do IBGE, MS foi o 4º colocado em produção de Bovinos, com 21.357.398 unidades animais produzidas. Isso equivale aproximadamente 8 bovinos por habitante). No período de 2000 a 2015, a produção de madeira de eucalipto para celulose teve um aumento 2.400%,  atingindo 9.419.761 toneladas, proporcionando ao Estado no 3º  maior produção de madeira de celulose no país. Já o setor sucroalcoleiro incentivado por investimentos públicos e privados atingiu a 5ª colocação nacional com 43.924.003 toneladas, ou seja, um aumento de 800% na produção total de cana de açúcar dentro do Estado no período. E o milho e a soja tiveram uma aumento de produção de 350% proporcionado principalmente aberturas de áreas novas e ganhos de produtividade, atingindo a 3ª a e 5ª posição nacional respectivamente. Com relação aos municípios, verificou-se que houve mudanças geoprodutivas no estado. Um exemplo disso foram Chapadão do Sul e São Gabriel do Oeste, que eram os maiores produtores milho e soja em 2000, e viram Maracajú se tornar o maior produtor desta duas commodities no Estado, com crescimento de 491% da produção de Milho e 231% da produção de soja. Por outro lado,  Chapadão do Sul , São Gabriel do Oeste e Costa Rica se tornaram os maiores produtores de algodão no Estado, havendo inclusive uma polarização da produção desta cultura nestes municípios, já que os três representaram 90% da produção total de algodão em 2015. Assim, foi possível constatar que houve uma espacialização dos fatores produtivos no Estado, sendo que, se delineasse um eixo horizontal no centro do mapa de MS, nos municípios do eixo Médio-Norte observa-se que prevaleceu a produção da bovinocultura e do algodão. Já nos municípios do eixo Médio-Sul as culturas da cana de açúcar, do milho e da soja tiveram a predominância de produção.

Dentro do cenário avaliado, como ocorreu esta evolução do agronegócio no Estado nos últimos anos?

Nos últimos anos Mato Grosso do Sul foi um dos grandes propulsores do agronegócio brasileiro, alavancado principalmente pela produção de commodities agrícolas e pela pecuária de corte. Entre 2000 até 2015, verificou-se que o PIB Agropecuário de MS teve um aumento real, corrigido pela inflação, de 101%. A maioria dos pequenos municípios do Estado, 43 dos 79 municípios, tem na agropecuária como a sua principal atividade econômica, e vale lembrar que a agropecuária como setor primário permite fomentar os outros setores econômicos, como comércio e serviços e na geração de impostos. Uma grande preocupação da pesquisa foi verificar se este aumento extraordinário da agroeconomia e todas transformações agro-setoriais experimentadas por MS beneficiou à sociedade sul-mato-grossense com bem estar social, geração de renda e sustentabilidade ambiental.

O senhor menciona o aumento significativo no PIB e no IDH de MS (2000-2010 - PNUD 2010) nas regiões onde houve investimento nas atividades agrícolas e pecuárias na última década. Por outro lado, os municípios nos quais os investimentos foram menores, os indicadores foram menos generosos. Como se estabelece essa relação entre a produção agropecuária e o desenvolvimento dos indicadores?

Para se estabelecer esta relação foi utilizada metodologia cientifica através de estatística de correlação. Foram avaliadas as características produtivas dos municípios de forma proporcional a sua atividade agro econômica, dividindo-se estas atividades em cinco grande grupos setoriais: municípios produtores de soja, milho, cana de açúcar, algodão e pecuária de corte. A partir de então, verificou como se comportou os indicadores destes grupos. Além do IDH, analisou-se outros indicadores sociais, como taxa de alfabetização, nível de emprego, água encanada, número de pessoas por domicílio e mortalidade infantil; indicadores econômicos, como PIB per capita, PIB da Indústria, PIB de Comércio e Serviços e PIB de Impostos; e indicadores demográficos, como população residente. Assim, como exemplo, é possível verificar se a atividade da pecuária tem aumentado os níveis de emprego, saúde e saneamento básico dos municípios predominantes desta atividade no Estado.

O pesquisador Alexander Pegorare durante defesa de sua tese (Foto - Divulgação/UCDB)

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Que regiões de MS despontam em desenvolvimento e a que esse resultado é atribuído?

Cada município de acordo com suas características agro econômicas avançou ou piorou em determinados indicadores, sejam sociais, econômicos ou demográficos. Os municípios produtores de soja e de milho foram que mais fortemente estiveram relacionadas com os índices de IDH e indicadores econômicos, ou seja, um aumento ou uma diminuição de produção destas culturas influenciam fortemente estes indicadores, o que torna também estes municípios mais sensíveis e dependentes destas atividades. Estas duas commodities também tiveram correlacionadas positivamente com a alfabetização, emprego, domicílios com Água encanada e inversamente correlacionadas a mortalidade infantil. A pecuária junto com a cana de açúcar propiciaram o maior crescimento do PIB da Indústria, o que já era esperado principalmente pelo fato do processamento e beneficiamento destas commodities se darem dentro dos seus municípios pelos frigoríficos e usinas de açúcar e álcool, respectivamente. Também as duas foram as que proporcionaram maiores taxas de crescimento em PIB per capita entre as commodities avaliadas. A pecuária proporcionou também o maior crescimento em relação ao IDH Longevidade, ou seja, vive-se mais morando nestes municípios. Porém, teve o menor crescimento populacional em relação aos municípios agrícolas. E infelizmente foi que menos favoreceu o Comércio e Serviços entre as commodities pesquisadas. Por fim, os municípios produtores de cana de açúcar tiveram o maior crescimento para os indicadores econômicos de PIB, PIB per capita e Impostos, contribuindo com maior riqueza para os municípios.

Notei que Japorã, Paranhos, Coronel Sapucaia e Tacuru são cidades cujos índices de IDH são significativamente mais baixos em MS. O que está por trás desses índices?

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é obtido pelo resultado da síntese dos seguintes indicadores: renda, expectativa de vida, e educação divulgado pela Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Nestes municípios, segundo a PNUD, tanto a renda quanto a escolaridade tem prejudicado a evolução deste indicador, classificado como baixo para estes municípios em 2010, ultimo resultado da pesquisa. Os dados mostram a proporção média do total de jovens de 15 a 17 anos com ensino fundamental completo é apenas de 32%; e a proporção de jovens de 18 a 20 anos com ensino médio completo é de 22% para estes municípios. Além disso, a proporção de pessoas pobres, ou seja, com renda domiciliar per capita inferior a R$ 140,00 (a preços de agosto de 2010), continuava alta, em torno de 35% da população residente destes municípios na média. Este dados são preocupantes e requerem atenção do gestores públicos para dirimirem estas questões, através de políticas aplicadas para educação e geração de renda.

O senhor aponta que a estrutura dos municípios também pode influenciar no recebimento das atividades agropecuárias. Que tipo de estrutura, especificamente, pode ser considerada chamariz de investimentos?

Existem diversos fatores que podem atrair investimentos para um determinado local que devem ser considerados de forma conjunta. Os principais incentivadores de investimentos no agronegócio estão relacionados à diminuição do custo de produção, aumento de produtividade, escoamento da produção e legislação ambiental desburocratizada. 
Um exemplo disso é a cultura da cana-de-açúcar, que teve seu forte crescimento na região Sul do Estado devido a seis fatores de atração de investimentos, sendo eles "terras planas e férteis", "clima favorável para a atividade", "terras mais baratas quando comparadas aos Estados vizinhos como São Paulo, Minas Gerais e Paraná", "o fato da região já possuir linhas de transmissão de energia para as indústrias", "legislação estadual que proibe novos estabelecimentos do cultivo de cana-de-açúcar na Bacia Pantaneira, conforme Lei Estadual no 328 de 1982", e "utilização de financiamentos públicos e incentivos fiscais para fomento da atividade". O que proponho seria colocar mais um fator para atração de investimentos, que seria "quais os benefícios socioeconômicos e ambientais a atividade agropecuária traria para sociedade local", principalmente quando envolve financiamentos públicos e incentivos fiscais.

A sua pesquisa também analisa o impacto ambiental no setor de florestas plantadas. O que os resultados revelam?

Com a forte expansão da silvicultura, que são as florestas plantadas, no Estado para fornecimento de madeira de eucalipto as indústrias de celulose e papel na região de Três Lagoas, houve uma grande preocupação com relação às emissões e remoções de CO2 pela atividade agropecuária como um todo, já que as florestas plantadas estariam substituindo as pastagens e as áreas agricultáveis. Outra grande questão foi avaliar os benefícios econômicos deste avanço das florestas plantadas no MS, que foi muitas vezes baseada investimentos públicos de financiamento como o BNDES e o FCO. Assim, a pesquisa verificou que quanto maior a produção das florestas plantadas, maior será o PIB do Estado e maior a remoção de CO2 pela atividade agropecuária como um todo. E, mesmo com a queda de valor do metro cúbico da madeira no período analisado, a política de investimentos baseada em financiamentos públicos para o setor de florestas plantadas favoreceu o PIB do Estado de Mato Grosso do Sul. Neste sentido, a pesar das criticas a respeito desta atividade econômica envolver enormes recursos públicos aplicados nesta atividade, esta tem sido uma política de investimentos que tem beneficiado economicamente e ambientalmente o Estado de MS dentro do período da pesquisa.

 

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