'Visão divina' sobre ser mãe contribui para distorções da maternidade, afirma militante

Por Daiane Líbero

 

Ser mãe é algo natural ou socialmente construído? É possível fazer da maternidade um ato coletivo de doação e aprendizado, mesmo em temos de pressa, correria e carreiras acima de tudo? Estas são algumas questões interpostas pelo Projeto Aldeia, que surgiu na cada vez maior tendência de discutir esta sera. O projeto oferece espaço de discussão sobre maternidades possíveis, bem como paternidade consciente, além de defender a criação com apego e humanização do parto. À frente do projeto está Camila Bruna Zanetti, 35 anos (ao lado de Fernanda Gomes Araújo e Ariane Osshiro). Mestre em Direito Público e ex-professora universitária, Zanetti abriu mão da carreira após tornar-se mãe e, atualmente, desempenha o papel de doula pós-parto em formação. Em entrevista ao Jornal Midiamax por e-mail, Zanetti apresenta os principais aspectos do projeto Aldeia, bem como opina sobre os papeis de gênero socialmente construídos e embutidos na maternidade. Confira.

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JORNAL MIDIAMAX - Como surgiu o projeto da Aldeia?

CAMILA ZANETTI - Quando Stella nasceu, em 2012, não consegui conciliar a vida materna com a vida profissional. Eu sentia vontade de acompanhar o crescimento da minha menina, e não estava inteira para lecionar. Decidi pedir demissão. Ao mesmo tempo, meu puerpério foi bastante difícil. Não tive um acompanhamento das mulheres da família que fosse suficiente para acalentar todas as minhas angústias, medos e a saudade de mim mesma. Todas tinham seus trabalhos e a vida corrida de hoje em dia não permite que a rede de apoio da mãe puérpera seja a mesma que deveria ser. Somos seres coletivos, e a solidão, em especial no pós-parto, não e coerente com as nossas necessidades psíquicas. Precisamos estar livres e amparadas para cuidar do bebê, e para isso é preciso que o companheiro, e toda a família e amigos próximos, especialmente as mulheres que já vivenciaram a experiência da maternidade, estejam perto cuidando da casa, da alimentação e fazendo companhia quando necessário.  Precisamos nos conectar com o bebê. Amamentar. Zelar. Mas saímos de uma vida frenética de trabalho e desconexão com nosso feminino e, de repente, nascemos de novo com o nascimento do bebê, nós descobrimos outra pessoa, e precisamos aprender a dar boas-vindas a essa nova mulher e ao bebê que passamos a amar e a conhecer cada dia mais. É uma imensa transformação na vida da Mulher e do casal. Quando me vi nesta solidão, tive a sorte de ter encontrado pelo caminho mulheres durante a gestação que gestaram junto comigo, nas aulas de Yoga, de Gestante e de Hidroginástica para Gestantes. Assim, quando os bebês tomaram a segunda vacina e nós encorajamos a sair de casa, com muita vontade, porque o enclausuramento do pós-parto não é nada fácil, passamos a criar um grupo aonde nós visitávamos semanalmente, revezando as casas, abastecendo-nos no compartilhar das mesmas angústias e medos da primeira maternidade. Sair de casa apenas para nos visitar permitiu um enriquecimento das nossas vivências, evitou que entrássemos em depressão pós-parto, e passamos a dividir vivências da maternidade que acolhíamos, e não da maternidade que nossas mães viveram ou que os médicos e psicólogos determinavam. Assim surgiu, digamos, o "embrião" da Aldeia como comunidade.

Olhando algumas informações na página da Aldeia, reparei que a capa é uma frase, "it takes a whole village to rase a child" (é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança). Como esse conceito de coletividade é aplicado hoje, em plena pós-modernidade, quando as pessoas estão voltadas para si?

A Aldeia não apenas divulga o conceito, nós o vivenciamos. Buscamos oferecer momentos de discussão acerca da responsabilidade coletiva de educar, criar e amar nossas crianças, das mães e das famílias como um todo. Nossos grupos de apoio promovem discussões sobre pós-parto, amamentação, vínculo, a importância da rede de apoio para a mãe, adoção, comunicação não-violenta para famílias, disciplina positiva, entre outros inúmeros assuntos que surgem de acordo com a demanda das mães que fazem parte do nosso coletivo. Esse coletivo acontece pelas redes sociais e presencialmente no dia a dia de cada uma. Quando alguém está com algum problema, a comunidade se une para auxiliar aquela mãe é aquela criança. Isso é feito de forma muito pragmática e instintiva. Recentemente uma das mães teve sua bebê internado na Santa Casa, e não tinha com quem deixar seu bebê . Foi criado um revezamento para levar comida e para cuidar do bebê. Além disso, também tem as mães empreendedoras, como eu, que sempre são prestigiaras pelo grupo como forma de incentivar seus pequenos negócios. A individualidade traz apenas doença, depressão , egoísmo. Deixamos de ganhar com as relações entre uns e outros além dos muros das nossas casas. Quando uma criança nasce, precisamos resgatar a consciência de que, coletivamente, todos somos responsáveis pelo seu bem estar, sua integração social e seu crescimento. Não é mais possível uma sociedade em que privem crianças e suas famílias de ir, com locais inadequados e inseguros. Não é mais possível uma sociedade aonde eventos sociais dizem não ser educado levar uma criança. Não é mais possível fechar os olhos para a violência, a fome, a negligencia e reverberada a negligência . Esses pequenos são o futuro desse mundo, e precisamos preparar boas pessoas para ele. As famílias precisam sentir- se pertencentes ao ambiento sociocultural em que vivem, com acolhimento, amor e adaptabilidade.

Há pouco tempo muita pouca gente tinha acesso a informações muito íntimas e importantes sobre alguns assuntos da maternidade, como por exemplo a demonização do parto normal, mais humano. Ninguém falava sobre coisas como puerpério. A romantização da maternidade como algo 100% "divino", "iluminado", dificulta a abordagem desses pontos? De que forma isso atrapalhou e atrapalha as mães?

Com certeza a visão divina da maternidade inibe tanto os profissionais que estão próximos da gestante a abordar as dificuldades reais do puerpério, quanto a mídia e o romantismo que impõe às cenas de mãe e filho distorce tudo o que espera aquela mulher e seu entorno na hora que o bebê chega. A maioria de nós não cuidamos de crianças, não cuidamos de outro ser humano em tempo integral, não vivemos com uma avó ou um tio doentes que precisasse do cuidar permanente. Cuidar é uma ação de devoção, é justamente por sua natureza inibe a liberdade do cuidador. Isso acontece com a mãe e com o pai (quando ele está presente) quando o filho chega. Ele precisa ser amamentado a maior parte do tempo, zelado, cuidado. Lá fora a mãe fica com receio de contaminação , vírus e doenças. Essa falta da liberdade gera uma saudade da vida que se tinha. Das atividades que se fazia. Da convivência com os amigos e ciclos sociais. A preocupação com o bebê pode ser desgastante... sair não é mais tão prazeroso, é preciso cuidar de uma infinidade de itens na bolsinha do bebê , carrinho, roupa adequada pra amamentar. É uma adaptação que não acontece de uma hora pra outra. A amamentação também nem sempre ocorre de forma fluída, pelo contrário , a maioria das mulheres tem algum tipo de dificuldade: rachadura nos seios, medo do leite não ser suficiente, noites em claro, ingurgitamento das mamas, entre outros. O relacionamento do casal é outro ponto que muda demais. A mulher sente mais necessidade de dividir as funções e nem sempre acontece. A sobrecarga chega: casa, finanças, autoestima, maternidade, vida pessoal. Nem sempre conseguimos equilibrar tudo e a culpa chega junto. A sociedade cobra também que a mulher fique bem, que o casal fique bem imediatamente e não acolhe esse período de transição que tem um tempo único de acontecer para casa pessoa.

Integrantes do projeto Aldeia (Reprodução/Facebook)

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Como vocês trabalham pra desmistificar essa romantização anódina do momento da gravidez/maternidade, onde só o parto cesáreo, os médicos homens, a juventude, a coisa de um parto limpo, só isso que é positivo, na visão da mídia, do estado?

Especialmente a vivência de outras mulheres podem desmistificar isso. A informação ajuda imensamente, porque saímos de um silêncio . Antes quem elegia amamentar, parar de trabalhar, não bater nos filhos, ter parto natural, não oferecer açúcar na alimentação de seus filhos era visto como radical, estigmatizado. Já passamos por um momento contrário também, gerando as "brigas maternas". Atualmente há um processo de maior acolhimento e aceitação de todas as decisões , em primeiro lugar porque é preciso a consciência de que cada realidade familiar é única, e dela decorre essas escolhas. Precisamos de empatia, e falar sobre ela nos sensibiliza para a cada dia promover o empoderamento feminino, a autorresponsabilidade, a consciência através da informação que promoverá escolhas verdadeiramente honestas, e a mudança é a confiança em nossos processos de gerar, parir, maternar e em nossas autoestimas como mulheres.

O que vocês acham da descriminalização do aborto, que quando não existe, obriga a mulher a um tipo de maternidade compulsória? Como vocês se posicionam sobre isso?

A Aldeia em si não tem um posicionamento único. Agregamos mulheres de diferentes credos, vivências e religiões. Como Camila, ativista, mãe e feminista, sou a favor da descriminalização do aborto, desde que ofereça uma assistência psicossocial à mulher antes, durante e depois do processo do abortamento, procedimento que pode impedir a decisão do aborto por exemplo. Somos a favor da vida. Somos a favor de que todas as mulheres sintam-se fortalecidas e amparadas para poderem decidir pela vida e pela maternidade. Contudo, além da questão social e econômica , existe a questão da escolha pessoal: há mulheres que não desejam ser mães e precisamos aceitar e acolher essas decisões, primando pela prevenção da gravidez indesejada, mas jamais impondo às mulheres o que elas devem ou não viver em suas vidas.

Toda mulher nasce mãe? Você acredita de fato que exista uma romantização do "ser mãe"? Qual a opinião de vocês?

Acredito que potencialmente todas as mulheres nascem capazes e aptas a serem mães. Biologicamente nascemos para isso e nosso corpo e nosso funcionamento fisiológico é feito para isso. Contudo, cada indivíduo tem uma experiência única de vida, desejos que são construídos para o futuro de forma muito peculiar. E isso pode alterar aquilo que a natureza propôs. Precisamos, contudo, entender que ser mãe não é certificado de felicidade. Que há muitos ganhos, mas muitas perdas. E que há mulheres que farão, de forma consciente, esta escolha. Isso não significa que são menos afetuosas, intuitivas ou acolhedoras. Julgar uma mulher que não deseja ser mãe dessa forma é no mínimo, machista. Respeitar o outro e sua forma de vida ainda são tabus e um processo de evolução para todos nós.

Quais projetos atualmente a Aldeia realiza no acolhimento de mães, doulas, desse universo maravilhoso de uma maternidade mais afetiva e humana?

Temos o Grupo de Apoio à Maternidade Ativa da Aldeia, grupo gratuito que realiza encontros mensais para abordar os temas do respeito ao nascimento, empoderamento feminino no gestar, parir e amamentar, violência obstétrica, questões gerais sobre parto e pós-parto. Temos também o Grupo de Apoio à Criação Consciente da Aldeia, que aborda questões sobre a criação consciente, disciplina positiva, escotismo, educação, adoção, prevenção da violência infantil, comunicação não violenta. Também realizamos atividades sobre o Brincar, e auxiliamos em políticas públicas em prol da amamentação e humanização do parto em parceria com diversas instituições público-privadas.

 

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