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Em sala lotada, exibição de ‘Martírio’ traz protagonista do documentário à Capital

Pessoas sentavam no chão para assistir ao filme

  • Damiana é protagonista do documentário e falou para um auditório lotado (Izabela Sanchez)
  • Pessoas sentavam no chão para assistir ao documentário (Izabela Sanchez)
  • Quem chegou depois não teve como entrar (Izabela Sanchez)

A exibição de Martírio, documentário do francês Vincent Carelli sobre a luta dos Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul aconteceu em meio a uma sala lotada, onde pessoas sentavam no chão do auditório do Museu das Culturas Indígenas Dom Bosco. Do interior do Estado, a organização do evento trouxe lideranças que protagonizam o filme, como a Guarani e Kaiowá Damiana e o Guarani-Kaiowá Felipe Kunumi.

Confira o vídeo da chegada dos Guarani e Kaiowá ao Museu:

 

 

 

 

 

Entre não indígenas e indígenas de diversas etnias, a exibição começou com atraso, o que não atrapalhou o entusiasmo do público. Terena e enfermeira, Zuleica acredita que a importância do filme – que vai ganhar exibição nas redes de cinema após a pressão da campanha - , se dá na possibilidade de informar melhor a sociedade sobre a realidade dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul.

“É importante mostrar a realidade, especialmente dos Guarani e Kaiowá, porque isso não é falado nas escolas, especialmente nas públicas. É preciso mostrar a visibilidade dos povos para que a sociedade e o governo os respeitem. E o governo execute e aprimore as políticas públicas”, comentou.

A cantora Marina Peralta, 24, trouxe até a filha, uma bebê de colo. Ela estimou a relevância da exibição mas criticou a falta de alcance que o longa tem no Estado. “Estou com bastante expectativa. “Deveria ser óbvio o filme passar aqui, ser exibido aqui. Mas assim, não que isso seja suficiente, eu acho que aqui hoje tem pessoas, vários indígenas vieram, mas a população em massa não vai assistir ao filme. Esse filme não vai passar na Globo no horário que todo mundo poderia assistir”.

Defensor da causa indígena, o ex-BBB e advogado Ilmar Renato, o ‘Mamão’, chegou cedo a exibição e comentou que estava ansioso para ver o filme. “Houve muita resistência para exibir Martírio em Mato Grosso do Sul. Depois de muita insistência conseguiram fechar a exibição. É importante para mostrar para o resto da sociedade a realidade dos Guarani e Kaiowá”.

Natural de Mato Grosso, o Xavante Leosmar Tseretsu, 26, estuda pedagogia em Campo Grande e explicou que vê em Mato Grosso do Sul um dos cenários mais violentos do país contra os povos indígenas. “Eu acho muito interessante pra dar uma visão pra outros povos porque aqui em Mato Grosso do Sul o genocídio é muito grande”.

A luta de Apyka’i

Visceral, Martírio dá visibilidade a rotina da comunidade Guarani e Kaiowá Apyka’i, acampamento de cerca de menos 10 famílias às margens da BR-463, em Dourados. Cerca de 8 indígenas já morreram atropelados na rodovia, após serem despejados em cumprimento a reintegração de posse de José Carlos Bumlai, proprietário da Usina São Fernando, em área reivindicada como tradicional.

Damiana e Felipe Kunumi chegaram munidos de pinturas tradicionais e instrumentos sagrados, como o Maracá. Na frente do Museu, os Guarani e Kaiowá iniciaram a reza tradicional e entraram na sala de exibição em meio aos cantos em Guarani.

“Essa é a nossa cultura, essa aqui é nossa defesa. Nós vimos esse filme e chegou um convite pra gente apresentar aqui em Campo Grande. Eu agradeço muito a presença. É a luta do povo guerreiro, de guerreiros que moram na área de conflito. A gente não vai desistir da luta”, declarou Ramão.

“O convite chegou no tekoha de Apyka’i e acredito que ajuda sim a luta Kaiowá e Guarani, dos Terena, de todos os indígenas, não só a minha terra, mas todo mundo”, cometou Damiana.

O deputado estadual Pedro Kemp (PT) falou ao público antes da exibição começar e afirmou que a dificuldade de exibir Martírio em Campo Grande não foi proposital. “Estamos em um Estado em que o agronegócio é muito forte. A Asembleia legislativa solicitou a exibição do filme às redes de cinema. É importante para o nosso Estado porque as pessoas não conhecem os povos indígenas, e há muito preconceito, onde são chamados de invasores. Mas eles são remanescentes dos povos originários”, declarou.

Um dos organizadores do evento, o antropólogo Messias Basques a exibição teve um sucesso de público “acima do esperado”. “Eu acho que hoje é um dia de sentimento muito contraditório pra todas as pessoas. É um dia de alegria porque nós veremos uma cena rara de indígenas entrando no parque que leva seu nome, mas ao mesmo tempo nós não temos nada a comemorar pelas coisas que são exibidas no filme”.

“É um sentimento de tristeza e de alegria. Tristeza porque a luta não começou hoje e não acaba hoje, ela tem sido confrontada por muitas forças que se opõe a ela. Nós sabemos quais são, as forças da bancada ruralista, dos movimentos conservadores do nosso país, mas mostra, por outro lado, a luta obstinada desses povos que resistem, não apenas pacificamente, mas com todas as suas forças, pra se manterem nos seus territórios tradicionais”.

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