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MS 40 Anos: Em Três Lagoas, trabalhadores do ‘Brasil afora’ vivem em alojamentos

Cidade tem até 15 mil habitantes flutuantes

  • Josenir, do Piauí, esteve em Três Lagoas duas vezes, uma na construção da UFN 3 e agora na Fibria.
  • Bernardo, do Maranhão, diz que vai para onde houver serviço.
  • Paulo é de São José dos Campos e trabalhou como soldador na Fibria por 9 meses.

As vagas da construção civil em Três Lagoas, município 338 quilômetros distante de Campo Grande, em certas épocas chegam a atrair mais de 15 mil trabalhadores à cidade. Vindos principalmente do nordeste, trabalhadores que vivem “no trecho” acabam vivendo em alojamentos pelo período em que estão empregados nas vagas temporárias.

O número parece grande , mas, segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico de Três Lagoas, Antônio Luiz Teixeira Empke Júnior, o número é confirmado pelos dados do SUAS (Sistema Único de Assistência Social) e SUS (Sistema Único de Saúde).

Nivaldo da Silva Moreira, presidente do Sintiespav (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil Pesada), acredita que o número pode ser ainda maior. “No projeto H2 da Fibria, passaram em média 8 mil empregados diretos. Se contar os indiretos e os que vem só para especulação, este número pode dobrar”, pontua.

Alojamentos

Em visita a Três Lagoas em setembro, a reportagem do Jornal Midiamax esteve em um dos alojamentos da cidade. Nivaldo acredita que há cerca de 10 construções dedicadas à moradia dos trabalhadores.

Não tivemos a permissão de entrar, mas pelo que pudemos visualizar, são construções simples com um toque humanizado: área de convívio com mesas de sinuca e jardim. Alguns de seus ‘moradores temporários’ nos contaram que cada quarto é ocupado por 4 trabalhadores. As empresas contratantes pagam todos os custos de uso do alojamento, inclusive limpeza e refeições.  

“Não tenho o que reclamar, o alojamento é bom”, afirma Paulo Sérgio Damasceno da Silva, de 37 anos, que trabalhou por cerca de 8 meses como soldador na Fibria. Ele mora em São José dos Campos, no estado de São Paulo e diz que já está acostumado a trabalhar longe de casa. “Já trabalhei 1 ano na UFN3 aqui em Três Lagoas”, conta. Minas Gerais e Paraná foram outros destinos de Paulo.

Trabalhando no trecho

Esta é a realidade dos trabalhadores vindos de outras cidades. Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, a maioria vem de estados da região Nordeste. Como é o caso de Bernardo Martins dos Santos, de 51 anos, que veio há 9 meses de São Luís, no Maranhão, para trabalhar como soldador também na Fibria.

Com tanto tempo longe da esposa e dos 3 filhos, Bernardo conta que neste período, foi visitá-los 3 vezes. Segundo ele, cada funcionário tem folga de 3 a 5 dias - dependendo da distância, mas não desiste da vida de trabalhar longe.

“Depende onde tem serviço. Já fui para Fortaleza, Rio de Janeiro, Pará”, enumera, mas ainda não esteve na região Sul. “Nunca fui para aquele frio danado, mas se tiver serviço lá, eu vou. Mas lá não tem alojamento, tem que alugar uma casa com dois ou três colegas”, declara, demonstrando que já conhece a realidade de outros locais.

Nomes diferentes, histórias semelhantes. Francisco Nunes, de 36 anos, de Boqueirão, no Piauí, também há 9 meses como soldador na Fibria, ficou sabendo da oportunidade por colegas que já estavam em Três Lagoas. “Trabalho no trecho, no mundo afora”.

Conterrâneo de Francisco, Josenir Almeida de Macedo, de 35 anos, trabalhou como encanador por 7 meses. “O que recebi consegui pagar minhas dívidas. Agora vou pegar minha recisão e fundo de garantia e vou voltar pra casa e esperar outra oportunidade”, relata Josenir. Ele conta que já esteve em Três Lagoas, quando trabalhou por 3 meses na construção da UFN 3. “Ouvi dizer que vão mexer lá, mas ninguém sabe quando vai começar”, afirma.

Paulo, Bernardo, Francisco e Josenir retornaram para suas cidades ao final da obra, porém, segundo Nivaldo, há muitos trabalhadores que permanecem em Três Lagoas. “Muitos que vieram acabam não voltando. Existe expectativa grande de outras obras, a segunda linha da Eldorado, a UFN3, uma fábrica de cerveja e a cidade ainda está em plena construção”, explica.

Benefícios previstos

Todos os benefícios são previstos em acordos realizados entre os sindicatos e as empresas. No acordo realizado para a Fibria, firmado entre o Sintricon (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Três Lagoas), o Sintiespav (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil Pesada) e as três empresas responsáveis pelas obras (Enesa, Irmãos Passaura e Estel) detalha as questões de alimentação, moradia e transporte.

Conforme a cláusula nona do acordo, trabalhadores de outros municípios “[deverão] receber da empregadora alimentação, moradia e transporte, enquanto estiver fora de seu domicílio”. Em relação à moradia, o acordo descreve que “será conjunta com outros trabalhadores, em instalações tipo alojamento, pensões ou residências, e será concedida em caráter indenizatório para viabilizar o trabalho, não caracterizando para nenhum fim alteração de domicílio”.

Ainda conforme o acordo, destacam-se três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar) que devem ser fornecidas “durante o horário de trabalho, em refeitórios dentro do canteiro de obras, e, fora do horário de trabalho, em local adequado no alojamento ou em estabelecimentos conveniados pelo empregador” e que “ocorrerá em caráter indenizatório, exclusivamente para viabilizar o trabalho”, entretanto tal benefício é custeado em 0,5% do custo individual de cada refeição pelo trabalhador.

Finalmente, os funcionários também recebem deslocamento entre o alojamento e o local da obra. “Independentemente da linha de transporte público municipal servindo o canteiro de obras, as empresas estão obrigadas a disponibilizar a todos os trabalhadores (...) transporte próprio ou locado, através de ônibus ou vans”.

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