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Mais um fazendeiro é preso em investigação sobre assassinato de índio

Ele é apontado no envolvimento do ataque à indígenas em Caarapó

Mulher Kaiowá nos arredores da fazenda Yvu em junho (Luiz Alberto)O quinto fazendeiro apontado em investigação do MPF-MS (Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul), no envolvimento do ataque que resultou na morte de kaiowá e guarani Clodioude Aquileu Rodrigues de Souza, 26, foi preso hoje (22) pela Polícia Federal. As prisões preventivas são relacionadas com o ataque ocorrido no dia 14 de junho na fazenda Yvu, na região de Caarapó.

Dionei Guedin é pecuarista e estaria foragido. Ele foi encaminhado para a penitenciária de segurança máxima de Dourados, onde estão outros três fazendeiros. Os mandados de prisões, a pedido do MPF, foram cumpridos por agentes da Polícia Federal, na última quinta-feira (18), em Dourados, Campo Grande, Caarapó e Laguna Caarapã. Foram detidos Jesus Camacho, Virgílio Mettifogo e Eduardo Yoshio Tomonaga, que estão em Dourados, e Nelson Buainain Filho, dono da fazenda Yvu, que está em Campo Grande.

Advogado dos outros quatro fazendeiros presos, Felipe Cazuo Azuma  afirmou que Dionei Guedin  “na verdade estava pescando”. Os cinco ruralistas foram presos pela Força-Tarefa (FT) Avá Guarani, do MPF, que foi instituída pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para apurar crimes contra comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul.

Nesta segunda-feira (22) também foram apreendidos dois revólveres, um rifle calibres 38, uma pistola .380 e sete espingardas calibres 16, 22, 28, 32, 36 e 38. Também foram recolhidos pela polícia 310 cartuchos, a maioria de calibre 22 (91 unidades), 380 (67) e 38 (54), além de dois carregadores de pistolas. Não foram encontrados armamentos registrados no nome dos fazendeiros.

Em nota, o MPF declarou que as apreensões reforçam a investigação. “A perícia realizada no local do ataque à comunidade encontrou projéteis deflagrados em calibres compatíveis com as munições apreendidas”, afirmou.

Investigação

As investigações do MPF fazem parte da operação Avá Guarani e começaram após a morte de Clodioude, que foi alvejado por dois disparos de arma de fogo, um no abdômen e outro no peito. Em 10 meses de investigações, doze pessoas já foram denunciadas por formação de milícia privada contra os índios em outro caso e, agora, cinco foram presas preventivamente.

No dia 5 de julho, a Justiça Federal de Dourados deferiu requerimento do MPF e expediu os mandados de prisão, que, segundo o MPF, aguardaram a execução pela Polícia Federal por mais de 40 dias.

A PF respondeu, por meio de nota, para justificar a demora. “Primeiramente, não ocorreu qualquer atraso injustificado para o cumprimento das decisões judiciais, sendo que causa espécie esta manifestação, uma vez que o MPF participou de todo o processo de investigação, acompanhando todas as necessárias diligências realizadas pela Polícia Federal para o deslinde da questão”, declarou.

Para os integrantes da força-tarefa, no entanto, a demora é reflexo da “falta de priorização da questão indígena pelo Executivo em todo o país”. “Apesar da morte de um índio e da lesão de outros nove, foi necessário aguardar 44 dias para que os responsáveis pela violência fossem presos. Se não houvesse essa demora injustificada, ao menos seria possível evitar o segundo ataque à comunidade, que feriu três indígenas”.

Ocupação

No dia 12 de junho, índios kaiowá e guarani da reserva Tey Kuê ocuparam a Fazenda Yvu, que incide sobre a Terra Indígena (TI) Dourados Amambai Peguá I, chamada pelos indígenas de 'tekoha guasu', grande tekoha, em guarani. A TI prevê outras 86 fazendas incidentes no território tradicional, que possui 55 mil hectares. O relatório de delimitação e identificação foi publicado no dia 13 de maio pela Funai (Fundação nacional do índio).

No dia 13 de junho, agentes da Polícia Federal foram notificados da ocupação por fazendeiros que os levaram até o local. De acordo com o MPF, os policiais não encontraram reféns e foram informados pelos indígenas de que o proprietário poderia, em 24h, retirar o gado e seus pertences do local.

Além dos fazendeiros presos, cerca de 300 proprietários rurais, com armas de fogo e rojões, organizaram-se para expulsar os kaiowá à força no dia 14 de junho. Testemunhas afirmam que foram mais de 40 caminhonetes que cercaram os índios, com auxílio de uma pá carregadeira, e começaram a disparar em direção à comunidade. Os kaiowá e guarani também afirmam que motocicletas foram queimadas e enterradas pelos fazendeiros.

No ataque, oito ficaram feridos e um faleceu. Dos indígenas lesionados, um deles tinha apenas 12 anos e levou dois tiros. Um dos feridos continua internado.

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