Trastes & Trusts

Raquel Anderson

Trastes desumanos, muitos de nós, em algum momento, humanos deviríamos nos sentir, pelas nossas soberbas e superioridades que nutrimos, desde sempre, em quaisquer cidades, em todas as nossas idades.
A pessoa errada, aquela caída na calçada, abraçada a uma criança, envoltas a um imundo cobertor, gente que não é considerada gente, mas, precisava comer, beber, viver, sim, precisava, já passou, em fração de segundos por ali passamos e os avistamos, passou, são apenas dementes, sem direitos, sem nada, sem parentes.
“Gente” que trepou, procriou e, se a amou, não vem ao caso, não interessa, gente que tropeçou na vida, incomodou, melhor seria se esses projetos humanos ali não estivessem, não nos interessa, não vamos consertar o mundo, hoje, gente suja, fétida, amanhã moribundos, eternamente imundos.
Seus desejos, que desejos?? Não os possuem, estão nas ruas, nas calçadas, ao léu, são estorvos a incomodar, não pertencem a nada, apenas fedem e são coisas, coisas que não precisam de nada, apenas precisariam não existir, não ferir os olhares limpos de quem tem tudo na vida arrumadinho, de quem trabalha, vai a igreja, paga impostos, paga escolas, viaja, é do bem, não faz mal a ninguém, é cidadão, merecedor do melhor oferecido à civilização.
Gente que vai a Disney, que ama Miami que vê no pobre, no indigente só o incômodo infame, gente que aplaude o Mickey, o Pateta que enfrenta fila do consumo feliz e despreza o seu país, gente que não precisa do saber, seu dinheiro compra tudo, gente que pode tudo ter, registra, com prazer, com seu iPhone 6, sua vida abençoada, jamais verá um “humano” na calçada.
Trastes das calçadas nunca saberão que Trusts tudo dominarão, terão a monopolização, a consorcialização, interesses onde não cabem a pobreza, onde não cabem os escórias que envergonham e precisam passar batido, suas existências chateiam, empesteiam o ambiente, atrapalham as necessidades de um mundo belo, aparente.
A sociedade é assim mesmo.... não podemos consertar o mundo, despossuídos não passarão, privilegiados consideram que seus direitos legítimos são, o mar fica revolto, os pantanais em movimentos climáticos se alternam, mas, a alma de um poeta pode se rebelar, ele não é imune aos olhos alheios, ele teima em ser imune a dor, queima em sua boca seus gritos abafados e é nas extremidades humanas que a vida é fria, na mente tudo é quente e nas pontas dos dedos, no dedilhar de um teclado que o poeta se expõe, sem medo.

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