​O teatro da insensatez

Dante Filho


Acompanhando as explicações técnicas pró e contra o impeachment na semana passada, na Câmara dos Deputados, só consegui entender com clareza a fala da professora Janaína Paschoal. Os demais – Ives Gandra, ministro Nelson Barbosa e Ricardo Lodi Ribeiro – embora tenham sido inegavelmente hábeis, professorais, brilhantes, não conseguiram distribuir os finos biscoitos para as massas, não ultrapassando a linha do bom estilo em favor das claras explicações. 
A professora Janaína talvez tenha sido mais feliz quando relatou os meandros das pedaladas fiscais na vida das pessoas, tipificando-as como crimes porque se decidiu fazer manobras contábeis após as eleições de 2014, utilizando recursos públicos de bancos estatais, gerando déficts orçamentários reais não previstos, turbinando assim a inflação, a recessão e a barafunda atual em que estamos metidos, sacrificando empregos, destruindo famílias, degradando (ainda mais) os serviços públicos. Não é pouco.
Dilma diz que fez isso para poder pagar o “Bolsa-família” e o “Minha Casa Minha Vida”. Ou seja: ela queria proteger os pobres. Trata-se de nobreza e não de decisão ilegal. Não merece ser apeada do poder. O problema é que quando existem números, há também pessoas fazendo contas: na chamada “pedalada” o grosso do dinheiro manobrado foi para bancos e empresas escolhidas a dedo. 
Apenas 11% foram destinados aos miseráveis do Brasil. Talvez essa seja uma lógica que busque justificar a impunidade política daqueles que usam uma necessidade pública, no início, para fazer uma grande falcatrua, no final. Acho que Dilma transita nas frinchas da necessidade com a malandragem.
Não entendo nada de economia. Li apenas os clássicos do assunto. Acompanho as páginas e debates com economistas. Bocejo. Gosto de Keynes, Marx, Celso Furtado, André Lara Resende, Hayek, Amartya Sem, Adam Shimidt e alguns outros menos cotados. 
Se eu fosse Czar da economia e vivêssemos em regime absolutista, faria o seguinte: decretava feriado bancário. Faria um levantamento de todas as dívidas pessoais inscritas nas instituições de crédito. Desde cheque especial, cartão, financiamento, tudo, até as contas dos alfinetes. 
Com esse dado, baixaria decreto perdoando todas as dívidas. "Vamos começar do zero!”, diria. O rombo de caixa teria que ser coberto pelo Tesouro. Meus assessores correriam até a mim e diriam que não há dinheiro para todos. 
Fácil: liguem as máquinas da Casa da Moeda e mandem imprimir notas à vontade. Essa dinheirama cobriria o déficit monetário. Em seguida, baixaria novo decreto convertendo todas as dívidas em novos créditos. Ou seja: se o sujeito devia R$ 100 mil ele poderia pegar emprestado valor correspondente e pagar com juros subsidiados no prazo de 20 anos o total do empréstimo. 
Não é preciso dizer que, de imediato, eu seria um herói nacional. O povo se ajoelharia aos meus pés. Todos sabem: a popularidade nas alturas concede o benefício da insensatez. 
Em três ou quatro meses a euforia tomaria conta das ruas. Aqueles economistas abutres e políticos de oposição seriam mandados para as masmorras. Não se pode permitir que minorias sejam estraga-prazeres da felicidade geral da Nação. 
Até que numa bela tarde de quinta-feira, assessores sisudos entram em meu gabinete com planilhas, computadores etc, etc, etc, mostrando que a dívida pública está quase abocanhando tudo o que se produz, que há muito dinheiro na praça, em quantidade muito maior do que de bens e serviços. 
Como a demanda está aquecida, todos os preços estão subindo, a inflação vai estourar e a carga tributária está matando. Conseqüentemente, pela estrutura do País, há crescente concentração de renda, com ricos ficando mais ricos e pobres vivendo a ilusão de que subiram um patamar na escala social. 
No final, eles vaticinam que a festa está acabando e que poderá haver convulsão social quando todos perceberem o engodo. Mais grave: as commodities internacionais caíram de preço. Olho pela janela, mando chamar o corpo de segurança, e ordeno que fuzilem os catastrofistas. “Liberais de merda, burgueses, coxinhas!!!”, grito. 
Como sou um cara esperto, mando segurar os preços da luz, da gasolina, da água, mando fazer controle cambial e orçamentário por debaixo do pano, deixo a corrupção correr solta (é assim que se faz amigos), amarro a inflação com as cordinhas da política fiscal. Enfim, faço o diabo, e esfrego na cara de meus críticos os índices estratosféricos das pesquisas de popularidade. “O povo está gostando, porra!”.
Aproveito o ensejo e minto, minto, minto a não mais poder, porque não existe nada mais divertido falar que está tudo bem quando sabemos que vem terremoto pela frente. Só uma coisa não entendo: por que estão pedindo minha cabeça? Eu sou honesto. Eu não fiz nada. Eu não sabia! Isso é golpe!

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